segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

para os momentos febris


Porque já se disse que escrever se dá num processo insano, febril, resolvi separar um pouco os escritos acadêmicos dos mais particulares, que agora terão como abrigo o sítio Febre Terçã. Assim, continuo a postar sobre minha tese doutoral em andamento aqui no Jornalismo Cordial, e deixo ao novo espaço a ingrata incumbência de guardar meus escritos menos formais e sem tanto compromisso. A porta está aberta.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A previsibilidade imprescindível

Me responde, por favor
Pra que que tudo começou
Quando tudo acaba
(Almanaque/Chico Buarque)


O que abre e o que fecha, o movimento do comércio, as missas e cantatas natalinas, o vazio das ruas na hora da ceia, o balanço das estradas e delegacias, a praia lotada no dia seguinte. A cobertura jornalística no Natal é isso aí. A gente reclama da mesmice, mas, como bem lembrou minha amiga Diana, "é feito Carnaval, tem todo ano, mas a gente nunca rejeita".

Uma repórter veterana sempre chegava à redação, em dias de festejo, resmungando que a apuração nessas datas era tão repetitiva, que se não saíssemos do jornal e só mudássemos as datas dos textos dos anos anteriores, não faria lá muita diferença. Seu bordão era "isso tudo é uma leseira".
Ela tinha sua parcela de razão. Tem um quê de melancólico, ritualístico, quase-previsível. Mas a gente não passa sem ele. Jingle Bells!


domingo, 21 de dezembro de 2008

Uma primavera

My candle burns at both ends
It will not last the night
But ah, my friends
And oh, my foes
It gives a lovely light...!
(Edna St. Vincent Millay)

Este blog completa 365 dias no ar, discutindo (ao menos, tentando) uma tese doutoral em andamento. Meus percalços, acertos, erros, caminhos e descaminhos estão sendo trilhados tendo este espaço como suporte, e os comentários de vocês como co-construtores desta pesquisa.

Em 2009, entro no segundo ano do doutorado, iniciando a pesquisa de campo, uma observação participante da rotina de apuração de dois jornais impressos.

Continuo com o mesmo gás. A paixão pelo 'periodismo', apesar de embaçar um pouco a vista (aliás, como qualquer paixão que se preze), é um combustível e tanto para continuar.

Obrigada pela participação de todos. Usem e abusem deste espaço, sempre. E que venha 2009.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Average Age

Monge copista labutando em plena 'Average' Age



Ontem, um professor me mostrava, entre desolado e estupefato, um trabalho de conclusão de curso de graduação que poderia figurar em qualquer lista de "mil exemplos de como não fazer um projeto acadêmico", com grandes chances de levar o primeiro lugar.

As pérolas eram muitas, com destaque para uma desavergonhada e matreira tentativa de não dizer nada de forma bem bonita e empolada, com requintes de malícia ao citar, logo no início, um escritor germânico dos mais densos e fundadores. Esperto, o cidadão.

Mas a cereja do bolo, a que me fez estarrecer diante da sem-vergonhice, estava, pasmem, escondidinha no resumo em inglês da 'monografia'. Uma das palavras-chave do abstract era Average Age. Fiquei sem entender o que a média de idade tinha a ver com o trabalho, que nada versava sobre estatística, faixa etária ou congêneres.

A dúvida se dissipou num segundo. O filiesteu se referia mesmo era ao período histórico da Idade Média, inadvertidamente traduzido como Average Age pelo Google ou outra ferramenta semelhante. Correção: a tradução rasteira não é falha do engenho de buscas, que na prática traduziu corretamente, mas da falta de senso e responsabilidade de quem delegou 100% à Web um trabalho que era pessoal e intransferível.

E caiu a máscara do futuro bacharel, gongado logo pelo utilíssimo Google, o melhor amigo dos estudantes, em sua maquiavélica tentativa de levantar vantagem em cima dos trouxas.

A Academia, esse palco tragicômico, tem dessas idiossincrasias.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Eu vou


Da Redação do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo

Com o objetivo de contribuir com as discussões acerca do ensino e da prática do jornalismo, bem como de fortalecer a campanha em defesa do diploma, será realizado no Recife, no próximo dia 12 de dezembro, o ENCONTRO NORDESTINO DE PROFESSORES DE JORNALISMO.
Será uma jornada cuja meta é uma maior aproximação entre instituições, profissionais e estudantes, buscando novos espaços de articulação e, assim, a troca de experiências, o aprofundamento dos debates e o planejamento de possíveis ações conjuntas.

A “abertura informal” do encontro será na véspera (11 de dezembro, às 20 horas, na Torre Malakoff – Recife Antigo), durante a cerimônia festiva de entrega do 15º Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo, organizado pelo Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (SinjoPE). A reunião do dia seguinte está programada para o auditório da Aliança Francesa, com a realização de uma mesa-redonda no período da manhã e de uma plenária, aberta aos relatos de experiência, no período da tarde. A jornalista e doutoranda em Comunicação Adriana Santana, do GJC, fará uma apresentação sobre a atuação do grupo na seção de relatos.

Está previsto, para o encerramento, um ato público em defesa do diploma, marcando o Dia Nordestino de Mobilização – e mais uma atividade de divulgação do livro organizado pela Fenaj (“Formação superior em jornalismo: uma exigência que interessa à sociedade”). Além do esforço do FNPJ e da Fenaj, com suporte local do SinjoPE, os sindicatos dos jornalistas de Alagoas e do Ceará já estão empenhados em garantir uma significativa representação dos respectivos estados, envolvendo ainda as escolas de comunicação.

As inscrições, gratuitas, podem ser realizadas pela Internet em formulário disponível no site da Universidade Católica de Pernambuco (http://www.unicap.br/). Os participantes terão direito a certificado. Uma Agência de Viagens está encarregada de apresentar opções de hospedagem em condições especiais para os inscritos – além de alternativas de passeios, também com tarifas diferenciadas, para os que permanecerem no Recife durante o final de semana (informações: Stylustur, com Nélida Costa ou 81-3269.6859).

PROGRAMAÇÃO

8h30 Credenciamento

9h Conferência de Abertura – Fazer Jornalismo: formação, prática e perspectivas. Alfredo Vizeu (PE), conferencista. José Carlos Torves (RS), debatedor. Ricardo Mello (PE), coordenador – SinjoPE e FNPJ

10h30 Intervalo

10h45 Mesa-Redonda – O que é ser Jornalista. Suzana Blass (RJ). Alexandre Henrique Lino (AL). Cristiane Bonfim (CE). Rafael Marroquim (PE). Aline Grego (PE), coordenadora – Unicap

12h15 Intervalo

14h Relatos de Experiência

16h Intervalo

16h15 Plenária Final – Diploma e Currículo: dois desafios em pauta

18h Encerramento

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Diga 33!

Uma mandala de Jung como presente


Porque hoje no céu Vênus entrou em Aquário - e eu não faço idéia do que isso signifique -, e porque não sou de guardar segredos (vide a profissão que abracei), brado logo aos quatro ventos que chegou a minha vez de dizer 33. E, reparem só a audácia, ainda me sinto com 16. Não sei se isso é bom ou ruim, mas feliz eu sei que estou. Se não for muita infâmia uma auto-indulgência, permitam-me que solte um "meus parabéns a mim"!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Santa do Oiteiro


Chamem-me antiquadamente crédula, espiritualmente piegas, mezzo espírita/mezzo católica, ecumênica ou simplesmente simpatizante das coisas imateriais e não comprováveis. Podem me enquadrar em qualquer dessas classificações, que nenhum mal estarão me fazendo. Na verdade, confesso de peito aberto que me amarro na Santa do Oiteiro de que falo no título deste post. "Cêça", no linguajar doce dos devotos recifenses, oficialmente conhecida por Nossa Senhora da Conceição, cujo dia de hoje, 08 de dezembro, é dedicado em sua homenagem no país inteiro.

A imagem de Ceça, aqui no Recife, fica localizada no morro homônimo, próximo da minha casa, zona norte. Tenho a sorte de (quase) espreitá-la todos os dias, da área de serviço do meu apartamento. A imagem tem quase seis metros, mas a distância e os prédios acabam impedindo minha visão total. A gente sempre trava umas conversas interessantes - com muitos pedidos, igual número de agradecimentos e troca de olhares (tudo bem, sou em quem olho, ela só aceita o olhar em sua direção).


Há 33 anos, minha mãe, grávida de 9 meses, subiu o morro (numa maldade bem intencionada do meu pai) para agradecer pela minha chegada, que viria menos de um dia depois. Há 7 anos, eu me casava no mesmo dia, pois não me imaginaria participando de qualquer ritual de passagem que fosse caso não estivesse sob a sua bênção.


Não tenho vergonha de dizer essas coisas, mesmo num espaço acadêmico e correndo o risco de ser ridicularizada pelos meus pares. Cresci vendo os romeiros de azul e branco, decorei e cantei à exaustão a belíssima versão de uma agência de publicidade para o hino da santa (incessantemente veiculada na programação televisiva dos anos 80, em Pernambuco), agarrei-me a ela nos momentos mais punk, bem como nos de maior redenção da minha vida.


Iria passar por uma cirurgia definitiva? Lá estava ela em meus pensamentos. Os médicos vaticinavam que eu nunca seria mãe? Meu pensamento era nela. Varava a madrugada sofrendo as dores do parto? Dona Ceça estava lá, olhando para mim do seu morro. Iria passar por um, por dois partos? Em ambas as vezes ela me acompanhou, através de um papelzinho que foi devidamente amassado a cada aparição violenta das contrações. Eu e minhas meninas levamos a marca - Maria - no nome. É lógico, e podem rir à vontade, mas foi uma forma de prestar nossa admiração e agradecimento.


Até fiz um paralelo com o jornalismo para 'justificar' meu post-reverência. Numa sacada de mestre, instalaram uma câmera na parte superior da imagem, aqui no Morro da Conceição, para transmissão em tempo real do "olhar da santa". Até poucos minutos, estava no ar. Agora, não mais. O link deve ter caído. Uma pena. Daria um belo comentário sobre o caráter de ubiqüidade que o jornalismo insiste em passar ao mundo. Mas que não se iguala, perdoem-me os céticos colegas, à presença natural, assustadoramente forte e igualmente singela, que a santa do oiteiro tem sobre mim e todos os seus milhares de almas vestidas de azul e branco, hoje e sempre.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

um zeitgeist só meu


talvez seja o clima de pseudo-férias e os zilhões de artigos a terminar. pode ser a proximidade das (por vezes) melancólicas festas de fim-de-ano. quem sabe o propalado inferno astral pré-aniversário? ou mesmo uma leve predisposição a dar importância exagerada às coisas comezinhas. não sei. mas o fato é que tenho estado muito impressionável. sim, assumo, novamente não estou falando - diretamente - da minha pesquisa. digo diretamente porque, no fim das contas, vocês vão ver, a tese é base para este post.

há pouco, ante a minha expressão preocupada e enfezada (procurava um documento importante pela casa, sem sucesso, e pensava nos trechos da pesquisa que preciso escrever para ontem), escutei da minha caçula: "mamãe, você pecisa consiguir". curioso como a danadinha captou bem o que se passava no momento e enfatizou o pecisa como quem ordena, sem chance de contra-argumento.

é verdade, eu preciso conseguir, filha. e vou conseguir. esta tese vai nascer. pode até ser a fórceps, mas que um dia nasce, ah, isso nasce. palavra de mãe. meio desorientada, excessivamente preocupada e com mentalidade quase adolescente, mas não menos mãe.

(este post vai em homenagem à bela Júlia, que veio ao mundo hoje, em pleno sol a pino, prenúncio de mulher guerreira. vivi e pablito, pais da mais nova sagitariana do pedaço, segue toda a minha alegria para a família que acaba de surgir).

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Narciso e o espelho


Está no ar a nova edição da Revista Estudos em Jornalismo e Mídia, editada pela Universidade Federal de Santa Catarina. Entre os artigos, um de minha autoria (Representações sociais e a auto-imagem do jornalista). Versão para acesso em pdf. Leiam, comentem, xinguem (se preciso) e postem suas opiniões por aqui.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Quereres

Ah! Bruta flor do querer/Ah! Bruta flor, bruta flor


Já que fiz a lição de casa e postei anteriormente sobre um pedaço da minha pesquisa, sinto-me 'livre' para um comentário parcialmente desconectado ao tema do blog.

Quando decidi embarcar de vez na vida acadêmica, tive que, naturalmente, fazer escolhas. Larguei meus dois empregos estáveis (nunca pensei que seria tão difícil entregar a 'azulzinha' no departamento pessoal) e, junto a eles, um relativo conforto material e uma despreocupação com assuntos bancários.

Adeus carro, corridas de táxi, gastos 'supérfluos' (se alguém souber de um arreio para barrar a visão de algumas lojas, me avise) e bem-vinda estava eu ao mundo estudantil novamente, formado por uma bolsa de pesquisa e freelas ocasionais.

Demorei pelo menos uns seis meses para cair na real. Seria extremamente demagógico da minha parte afirmar que está sendo tudo lindo e romântico. Não há lá muita beleza em voltar a andar de ônibus depois de tanto tempo. Bem como não é com um sorriso no rosto que penso na mensalidade da escola das minhas filhas e contas em geral.

No entanto, dá para extrair uns momentos interessantes - na falta de melhor palavra - desse novo modus vivendi. Principalmente depois que perdi meu olhar de turista, para adquirir o olhar de uma 'local' que ainda se admira com as coisas 'pequenas' do cotidiano.

Na segunda-feira, voltando da Universidade para casa, no final da tarde, acompanhei uma cena que não me saiu da cabeça. No trajeto do ônibus, uma mulher com dois filhos pequenos sentou-se à minha frente. Bem arrumados e humorados, os meninos olhavam curiosos para tudo o que aparecesse pela janela.

Travaram uma 'conversa' com passageiros de um carro que parou ao lado do ônibus quando o sinal fechou. Quando o farol abriu, eles acenaram aos rapazes, que aceleraram e passaram à frente na avenida. O mais novo (uns quatro anos) virou-se para a mãe e disparou: "Mãe, eu quero andar de carro! Por que a gente não 'tá num?" A mãe olhou para ele, mas não respondeu. O mais velho (seis anos) tratou de satisfazer a curiosidade do irmão: "É porque a gente não pode, né, mãe?". A mulher desviou o olhar dos meninos e, nesse momento, cruzou o olhar com o meu. Covardamente, confesso, eu também desviei.

Lá e cá, tal e qual


No período de 21 de setembro de 2007 a 17 de outubro de deste ano, cataloguei e analisei 47 notícias sobre estrangeiros na Alemanha e nordestinos no Brasil, nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Süddeutsche Zeitung e Augsburger Allgemeine. No caso da Alemanha, 16 matérias, e do Brasil, 31 textos. Faz parte de um artigo sobre o uso deliberado de elementos de 'objetividade' no jornalismo, de modo a encobrir estereótipos e conceituações de senso comum.

Segue um breve 'retrato' midiatizado de nordestinos e estrangeiros, pela amostra analisada:

Nordestinos em jornais do Sudeste

Estrangeiros em jornais alemães

Pobre/sem recursos – 20,5% das recorrências

Recusa-se ou dificulta integração – 11,9% das recorrências

Trabalhador/Esforçado –16%

Baixa escolaridade/Despreparado 9,5%

Associação à seca – 10,2%

Pobre/sem recursos/sub-empregado – 7

Criativo/Talento artístico – 7,3%

Vítimas do preconceito/dificuldades – 9,5%

Tradicionalista/Conservador – 10,2%

Religioso/Supersticioso – 7,3%

Pouca ou nenhuma fluência no idioma –9,5%

Pessoas caricaturais/exóticas – 5,8%

Vontade/necessidade de migrar – 4,4%

Relação com criminalidade –7%

Solidário – 4,4%

Vontade/necessidade de imigrar 7%

Associação ao cangaço – 2,9%

Trabalhador/esforçado –7%

Gosto pelo jogo – 2,9%

Associação ao desemprego –7%

Humildade – 2,9%

Tradicionalismo/Conservadorismo –4,7%

Forasteiro, inadimplente, persistente, desapegado ao trabalho, amante da natureza, associação à violência e ao desemprego, com 1 recorrência cada (1,4% cada)

Temperamento afável –2,3%

Criatividade/Talento artístico 2,3%

Mau caratismo –2,3%

Excesso de estrangeiros no País –2,3%


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O self, o ID, ou seja lá quem for


Nem self, nem id, ego, super-ego ou arquétipo individual. O desenho aí em cima é a melhor - na verdade, a mais otimista e benevolente - representação de mim (ou da persona que represento, sabe-se lá) que eu já visualizei. Obra e arte de Nina, minha primogênita, com toda a autoridade e competência que seus quatro anos recém completados a conferem.


(Não, obviamente este post nada tem a ver com a minha pesquisa. Mas esse desenho falou tão alto a mim, que não poderia deixar de registrar meu encantamento).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Os outros são os outros

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece. (por Charles Bukowski).

Não consegui confirmar, em fonte minimamente fidedigna, a autoria desse excerto como sendo do 'velho safado' do Bukowski mesmo. Quem souber, me avise, por favor.

A menção ao preconceito no texto atribuído ao escritor é a deixa para comentar meu mais recente artigo. Numa análise de representação midiática do nordestino no Sudeste brasileiro e do estrangeiro na Alemanha, identifiquei na amostra recolhida em matérias de quatro jornais impressos (dois do Brasil e dois germânicos) o reflexo do velho e indefectível senso comum: a maior parte dos textos retrata o migrante e o imigrante sob a ótica da pobreza, falta de recursos e da sub-empregabilidade.

Não que esses dois grupamentos não estejam inseridos nesse contexto, pois muitas vezes estão, mas é que ainda são raras as aparições desses personagens em matérias que não estejam, necessariamente, fazendo referência a essa condição de, por assim dizer, subalternidade.

Engraçado que uma das matérias analisadas retratava um nordestino não migrante, empresário, na seção de Economia, a respeito do sucesso da empresa tocada por ele. Me animei com a possibilidade de fuga do lugar-comum, mas o cidadão, apesar de ter a característica do empreendedorismo destacada, é retratado como uma figura caricata, supersticiosa, conservadora e pouco ortodoxa no que diz respeito à administração do negócio.

Num texto pinçado de um jornal alemão, uma imigrante da Tunísia é descrita como fruto da saudável mistura entre as duas nacionalidades: "ela encontrou o seu caminho tirando o melhor das duas culturas: sinceridade, pontualidade, retidão e senso de justiça dos alemães; amabilidade, carinho, sociabilidade e generosidade dos tunisianos".

Êta mundo de Deus sem porteira, eternamente preso à malandragem de um 'bom' e velho estereótipo para simplificar a complexidade das gentes. Pára, motorista, que eu quero descer enquanto é tempo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Enunciação nas mídias


O Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE realiza, em 30 de outubro, o Seminário Enunciação nas Mídias, no Centro de Artes e Comunicação (mini-auditório 2).

O evento terá como palestrantes os professores José Luiz Fiorin, da USP, e Antônio Fausto Neto, da Unisinos. Virgínia Leal, do Programa de Pós-Graduação em Letras e diretora do Centro de Artes, e Alfredo Vizeu, do PPGCOM e coordenador do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade, atuarão como debatedores.

As inscrições são gratuitas e já podem ser feitas pelo e-mail ppgcomufpe@yahoo.com.br
Para isso, basta colocar o título do seminário em “Assunto” e informar o nome completo, e-mail e telefone no corpo da mensagem.

Confira a programação:

Seminário Enunciação nas Mídias
Dia 30/10/2008

09:00 – 09:30 – Abertura

09:30 – 12:30 – Conferência 1. As categorias da enunciação nas mídia. Conferencista: José Luiz Fiorin (USP:FFLCH). Coordenador: Yvana Fechine (UFPE:PPGCOM). Debatedor(a): Virgínia Leal

12:30 – 14:30 – Almoço

14:30 – 17:30 – Conferência 2. Midiatização e os ‘novos regimes’ da enunciação midiática. Conferencista: Antonio Fausto Neto (Unisinos). Coordenadora: Cristina Teixeira UFPE:PPGCOM). Debatedor: Alfredo Vizeu (UFPE:PPGCOM)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

meu nariz empinado à ética


Narizinho - Ilustração de Manoel Victor Filho


A ética do jornalista é a mesma ética do carpinteiro, parafraseando a genial sacada de Cláudio Abramo. E embalada nesta cantiga eu escanteei um estudo mais aprofundado sobre a questão por muito tempo.

Mesmo concordando integralmente com essa visão, esqueci-me de abrir os olhos para o fato de que comungar da idéia de que só existe uma única instância de ética, válida para todas as profissões e papéis no mundo, não exclui a necessidade de se debruçar sobre o tema, especialmente quando a 'espinha dorsal' da minha pesquisa, o fio condutor do meu estudo está fincado na ética. Que poderia ser apenas a do carpinteiro, mas é também a do profissional da notícia.

Também tive muitas reservas a uma análise deontológica do jornalismo, não porque não a considerasse relevante, mas por uma preconceituosa resistência, medo mesmo, de resvalar para o moralismo, a normatização e controle.

Inicei na semana passada a leitura de Ética, de Adolfo Sáchez Vázquez, e quase desisto ainda no prólogo quando percebi que o viés adotado pelo autor seria o de analisar a ética através da moral. Conceito controverso, primo-irmão do puritanismo, vou cair fora, assim oebsei. Mas não dei bola ao meu preconceito e segui. Não me arrependo. Até porque a moral, nesta obra, é encarada como fato histórico, como fruto de um tempo e, dessa maneira, objeto da análise ética.

Ele assume uma postura que não passa por moralismos dogmatizadores, por códigos de normas, tampouco se refugia num "neutralismo ético". Acho que era isso que eu fazia. Me refugiava com o manto da neutralidade, com o receio de parecer demasiado 'catequizadora'. Num excerto, o autor afirma que "o valor da ética como teoria está naquilo que explica, e não no fato de prescrever ou recomendar com vistas à ação em situações concretas".

Gostei de ter continuado a leitura. Aparte um exagerado otimismo no homem (do qual comungo) e de uma anacrônica certeza de que o socialismo ainda irá ser o redentor de todas as almas (da qual gostaria de ainda acreditar), é um livro que me colocou para pensar mais e com mais dedicação à ética. Àquela do carpinteiro ou qualquer outra que valha.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

"Marqueting"


Tenho me esquecido de socializar minha produção de artigos. Como sempre comento sobre as pesquisas que venho desenvolvendo, achei de 'bom tom' começar uma microssérie de textos sobre o jornalismo que tenho publicado em revistas científicas. Para não ficar cansativo, vou adotar a sistemática de postar apenas o resumo, acrescentando o link de acesso para quem se interessar em ler a íntegra do texto.

Espero fomentar os comentários, críticas e sugestões de vocês sobre os temas.

Publicado na Revista Communicare, da Faculdade Casper Líbero, São Paulo, Volume 8, número 1, 2008

Resumo
O objetivo deste artigo é trazer à discussão uma modalidade de exercício jornalístico, que caminha na contramão das definições utilizadas nos meios acadêmico e profissional, para retratar a atividade jornalística tradicional: a acomodação nas redações e a ‘terceirização’ da apuração por intermédio das assessorias de imprensa, culminando com o surgimento da figura do ‘jornalista
cordial’. Com o aporte dos resultados alcançados após um mês de análise do comportamento de dois grandes jornais nordestinos em face do recebimento diário de releases de uma assessoria de comunicação, pôde-se traçar um paralelo entre o jornalismo considerado ‘ideal’ e aquele que é efetivamente realizado, no qual investigação, compromisso com os fatos e a própria ética
tendem a assumir, por vezes, um papel secundário.

Palavras-chave: jornalismo, Ética do Jornalismo, Assessoria de Imprensa.

Abstract
This article wishes to bring into the discussion a modality of journalism practice that takes the opposite route to the definitions used in the professional and academic areas to portray the traditional journalistic activity: the laziness in the news room and the outsourcing of enquiries through the press relation agencies, coming with the image of the “friendly reporter”. With the results of a month of analysis of the behaviour of two big newspapers from the Brazilian Northeast area compared with the daily press releases received from a PR agency, it was possible to make a parallel between what’s considered “ideal” journalism and what is
really done, where investigation, a compromise with the facts and even the ethics assume, from time to time, a secondary role.

Key words: Journalism, Journalism Ethics, Press Relation Agencies.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Emulsão Scott


Mesmo incorrendo no risco de parecer bem mais velha do que sou, preciso confessar, para o bom entendimento do porquê da escolha da Emulsão Scott como título, que em menina nunca precisei do reforço desse preparado para abrir o apetite. Ao contrário de vários amiguinhos de infância, eu fui e - desgraçadamente assim continuo - uma esganada por comida. Quem me conhece, sabe do que estou falando. Se permaneço dentro dos padrões 'normais' de IMC, devo tudo aos genes e aos céus.

Eu quis fazer menção ao danado do fortificante com óleo de fígado de bacalhau - grande injeção de ânimo, um convite ao apetite - como figura de linguagem para registrar um momento de enlevo, de pazes para com o jornalismo, o qual presenciei na tarde de hoje.

O diretor-adjunto de redação do Jornal do Commercio de Pernambuco, Laurindo Ferreira, conversou uma tarde inteira com alunos da graduação em jornalismo da UFPE, a convite de Vizeu, orientador da autora destas mal tecladas.

Sem medo de parecer macaca de auditório ou demasiadamente reverente, não poderia deixar de registrar como esse bate-papo atuou como injeção de ânimo, como uma verdadeira Emulsão Scott ao apetite jornalístico desses repórteres-vir-a-ser.

Em resumo, Laurindo traduziu em linguagem simples, direta e com muita densidade, o que nossos estudantes precisam - e esperam - ouvir: que é, sim, factível um projeto jornalístico decente e competente, mesmo em meio à série de constrangimentos, restrições e embates travados diariamente nas redações.

Prova de jornalismo 'perfeito', completamento isento, 'puro'? Claro que não. Mas da possibilidade de desenvolvimento de um jornalismo realizado em meio a negociações, a jogo de cintura, a sensibilidade, ao reconhecimento de que os conflitos e os confrontos fazem parte desse processo.
Dá pra publicar tudo? Naturalmente que não. Mas devemos nos antecipar de tal maneira às supostas decisões dos que mandam e desistir de pautas espinhosas antes de qualquer tentativa de discussão e negociação? Aí seria o berço da autocensura, uma crônica de uma morte anunciada.

O ex-diretor de redação d’O Estado de S. Paulo Sandro Vaia (nos anos de 2000 a 2006), para ilustrar como o signo do conservadorismo político e econômico era absorvido antecipada e preguiçosamente pelos jornalistas, conta (na edição de setembro de 2007 da piauí) que os funcionários pensavam como os donos sem quaisquer reações contrárias e, ainda, sem que fosse necessária a interferência da direção para que isso acontecesse – tamanha era a internalização dos valores: " Um editor executivo dizia, com ironia e propriedade, que um dos grandes problemas da redação do Estadão era 'o Mesquitinha que existe dentro da cabeça de cada um de nós' . Ele queria dizer que, pelo hábito de pensar com a cabeça dos patrões, a redação reprimia a ousadia e tendia para a autocensura."

Foi nesse ponto que Laurindo Ferreira trouxe à luz uma questão primordial à existência de qualquer ambiente de produção noticiosa: o conflito, as diferenças, como catalisadores ao 'arranque' do fazer jornalístico.
Lembrou do caráter primordial que deve mover 'corações e mentes' envolvidos na atividade: "o pensar repórter", nas palavras dele, a eterna predisposição em se pensar a notícia num exercício diário de perspectiva, de um molhar-se de realidade constante.

Eu poderia passar a madrugada escrevendo sobre a tarde de hoje, mas seria contraproducente - para os meus dedos de péssima digitadora e, principalmente, para vocês, minha meia dúzia de leitores pacientes.

Eu só não poderia deixar de fazer o registro de como encontros tão despretensiosos como esse podem valer um vidro inteiro de Emulsão Scott na veia. O da versão reloaded, é claro, que agora é rosada e com sabor morango, bem diferente do gosto tétrico de peixe podre e aspecto idem de outrora.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Nós e os outros

Aê, maninhos, será que dá pra me emprestar um pouquinho de melanina?


Sempre me intrigou a temática do 'outro'. O estrangeiro, o migrante, o imigrante, o que não 'pertence' originalmente ao lugar de onde se fala. Talvez por ter estado, muitas vezes, do 'lado de lá'. Já fui nordestina vivendo no Sudeste. Já fui latina morando na Europa. Talvez resida aí meu interesse.

Numa pesquisa que ando tocando para finalizar um artigo justamente sobre o tema (a representação midiática dos nordestinos no Brasil e dos estrangeiros na Alemanha), acabei me surpreendendo com um elemento-surpresa.

Meu objetivo era ter como corpus de análise apenas textos de jornais que tratassem desses personagens, de modo a identificar presenças, diferenças e recorrências no modo em que esses públicos têm sido retratados por parte da imprensa. O que não me passava pela cabeça era a riqueza de material que encontraria nos comentários dos usuários/leitores dessas matérias.

Confesso que venho me assustando com a permanência da intolerância. E também, que bom, com a lucidez de muitos leitores. Em especial, queria destacar uma matéria veiculada no Süddeutsche Zeitung, no dia 17 de setembro passado.

O texto traça o perfil e fala sobre como anda a vida de um jovem (21 anos) de origem turca, após ser atacado violentamente por um igualmente jovem alemão, em Munique, pela velha torpe e estúpida causa da intolerância racial. (o termo vem por pura falta de melhor definição, pois considero que raça, além de não significar patavinas, nem sequer existe mais formalmente. a respeito, artigo interessante de Dráuzio Varella, na FSP)

Bom, o fato é que o texto suscitou 41 comentários até agora. O interessante é que os usuários podem valorar as opiniões em boas e más. Há visões nos extremos. Dos neo nazi-fascistas disfarçados de patriotas pós-modernos aos neo-hippies libertários. Há votos aos dois grupos (tanto apoiando, como desancando).

Destaco apenas dois dos comentários (de forma bem resumida e editada, pois são bem grandes. peço desculpas antecipadas por eventuais deslizes de tradução):

*Gerhard:
Jeder Ausländer darf Deutsche beschimpfen wie ihm das passt, vom anmachen deutscher Frauen noch ganz zu schweigen. Sie werden dafür in keinster Weise zur Rechenschaft gezogen. (...) Beim Brand eines Wohnhauses mit Türken als Bewohner darf sich sogar eine Verunglimpfung des gesamten deutschen Volkes durch Türken erlaubt werden. (...) Der abgebildete Türkenjunge ist ja wohl kein Deutschter? Betreibe ich jetzt Volksverhetzung?
Qualquer estrangeiro pode xingar alemães como quiser, pode se insinuar para mulheres alemãs. Por isso eles não vão ser responsabilizados de maneira alguma. Agora, se uma residência com moradores turcos pegar fogo, eles podem até depreciar todo o povo alemão (...) Esse jovem turco retratado não é considerado alemão? (ele nasceu na Alemanha e possui o passaporte alemão, nota minha). Então estou demonstrando ódio racial?


**Alex:
bayerische justiz war schon immer so und wird auch so bleiben. dieser fall wird nichts ändern.
ausländer egal ob mit deutschem pass, werden härter bestraft als richtige deutsche, ist so
leider. aber was sollte sich auch nur nach 60 jahren ändern??

A justiça bávara sempre foi assim e assim continuará. Esse caso não vai mudar nada. Os estrangeiros, não importa se portadores ou não da cidadania alemã, sempre serão mais duramente punidos do que os alemães de verdade, infelizmente é assim. Mas o que é mudaria somente 60 anos depois?

Em tempo: dois usuários votaram no primeiro depoimento. O primeiro voto considerou o depoimento como bom. O segundo, como ruim. Eu fui a segunda votante. Já em relação à opinião acima, há um empate técnico entre valorações positivas e negativas.

Em tempo, ainda: as eleições do último domingo na Áustria deram maioria aos social-democratas (cerca de 29%), MAS os partidos de extrema direita avançaram consideravelmente, conquistando um total de 29% - sendo 18,01% para o Partido da Liberdade (aquele do penúltimo post) e 10,98% para a Aliança para o Futuro da Áustria. Fonte: O Globo.

Medo, muito medo. De verdade. Como diria a Alex do comentário lá em cima, o que é que mudaria "apenas" 60 anos depois?

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Tem repórter no cinema


No penúltimo post, citei en passant o 'cara' com quem divido o teto, a vida e duas lindas meninas. Cinéfilo, estudioso da arte/técnica cinematográfica e repórter de mão cheia (iniciou-se nessa vida tirana da profissão em jornal, e hoje 'pratica' o jornalismo na rede - não a de dormir, mas a de computadores), ainda encontra tempo para falar sobre o que mais gosta no Cinereporter.

Projeto independente (leia-se: sem recursos), feito por puro diletantismo e um quê de insanidade, o sítio chega ao quinto ano em sua versão reloaded. Vocês até vão me perdoar por advogar em causa própria, pois é informação/entretenimento de qualidade.

Entre as novidades, tecnologia RSS, espaço para comentários livres dos leitores, blog 100% integrado, um sistema de buscas interativo e a opção de compartilhar todos os conteúdos em bookmarks sociais. Novas seções multimídia também estão no ar, com o recurso dos vídeos e podcasts. O site foi todo montado com a tecnologia Wordpress.

Em tempo: sou eu a camera girl que comanda (muito a contragosto) a filmagem das vídeocríticas. As risadas que, eventualmente, aparecerem nos podcasts também podem ser fruto do meu espírito de porco, como diria minha mãe. Ah, e também batizei o espaço com a pouco criativa, mas eficiente e decente, alcunha de Cinereporter. '

Tá bom, agora acabei o comercial. Acessem e depois me contem o que acharam, por favor. Inté.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Deu no Süddeutsche Zeitung...

Quem vê cara, não vê suástica

... de 19 de setembro de 2008.

Sobre Heinz-Christian Strache, chefe do Partido da Liberdade Austríaco (FPÖ) e candidato a chanceler da Áustria. É o baby face da foto acima:

"Desde a juventude ligado à extrema direita. Pretende abolir a rigorosa proibição à saudação nazista. Posiciona-se contrário a estrangeiros. E pode se tornar após as eleições ao parlamento deste domingo, na Áustria, junto com o seu partido (FPÖ - Partido da Liberdade Austríaco), a terceira maior força política no País." Matéria completa no link http://www.sueddeutsche.de/politik/904/310832/text/

Um homem, um povo e uma nação não podem ser taxados de culpados antes que se prove o contrário. Eu acredito na inteligência dos cidadãos austríacos. Espero não queimar a língua no domingo.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

sobre sectarismos, enfado e frases de efeito

No fundo, o que todo detrator do jornalismo sempre quis ter foi um Pulitzer Prize na estante

"Born, not made". Com essa presteza retórica e aguçado senso de criação de verdades absolutas via frases bombásticas, o escritor John Dillon vociferava contra a iniciativa de criação do curso de jornalismo na Universidade do Missouri, nos EUA. Para ele, o jornalismo se assemelhava às atividades artísticas, como a poesia, cuja propensão e dom eram inatos. Portanto, nascia-se com eles, nada se aprendia ou se construía com o tempo. Isso em 1879.

Tempos depois, Joseph Pulitzer (hoje mais lembrado pela premiação homônima) rebatia com a mesma força de torpedo: "A única posição a que um homem pode triunfalmente chegar pelo simples fato de ter nascido é a de idiota".

Essa historieta é contada por Luís Beltrão na abertura de uma série de conferências ministradas em 1963, que culminaram com a obra "Métodos en la Enseñanza de la Técnica del Periodismo", editada pela Ciespal, no Equador.

Costumo não ser categórica ou levantar bandeiras em defesa do diploma de jornalista, não por não me preocupar com o tema (muito pelo contrário), mas simplesmente por não ter a mínima paciência em falar sobre o que para mim é tão óbvio, que chega a ser estúpido.

Como Sérgio Murilo, o atual presidente da Fenaj, disse ontem à primeira audiência pública sobre a proposta de (des)regulamentação da atividade, o jornalismo é a única profissão que é submetida a uma avaliação externa sobre a sua regularidade ou não. Se essa profissão-geni é tão malhada e 'odiada' aos quatro ventos, se, em bom português, não presta para nada a não ser embrulhar o peixe de amanhã, se não há propósito em existir, por que raios tanta gente se arvora em meter o bedelho?

Eu já tive raiva, nos meus tempos de destempero, mas hoje chego a achar muito divertido assistir a contendas sobre a questão.

De um lado, os defensores do diploma, já roucos de tanto repetir o que para eles é tão natural e claro (para mim também, podem me incluir nessa).

Do outro, a ala autointituladamente cult, pretensamente 'muderna', avessa e alérgica a toda e qualquer menção ao jornalismo - naturalmente, contra o jornalismo como curso universitário.

Gente que, salvaguardadas algumas poucas exceções, apesar de ter escolhido o jornalismo como profissão na época do vestibular e não ter desistido do curso, de muitas vezes ser bem pago pelo governo federal para ensinar jornalismo em graduações onde a concorrência por uma vaga é altíssima, incute na cabeça dos estudantes (desde os primeiros períodos) que o jornalismo é apenas uma atividade menor, braçal e irrisória, e que melhor fariam eles se esquecessem dessa idéia idiota e partissem para a pesquisa, às artes cinematográficas ou ao esporte de malhar os jornalistas.

Para piorar a cena, o cordão dos 'espanca-judas' é formado, na maioria das vezes, por jornalistas graduados que sequer passaram pelas cercanias de um veículo de comunicação. Gente que nunca pisou em redação - por decisão própria ou imposição do mercado, sabe-se lá.

E que são categóricos em afirmar que abominam a produção pobre da imprensa nacional, embora, não me perguntem o porquê, conseguem tecer críticas contundentes, ricamente fundamentadas, a toda e qualquer matéria que for veiculada em quaisquer jornal/tv/rádio/web daqui e d'alhures. Será que é fruto da cultura "não vi e não gostei", ou o povo é adepto a um masoquismo e se amarra em ler jornal para empobrecer seus nobres espíritos elevados?

Divirto-me ainda mais com os 'filhotes' pseudo-anárquicos, a horda de estudantes com ar blasé e eterna expressão de enfado, que desistem do jornalismo já aos primeiros semestres do curso, e que se metem a espancar o judas periodístico sem nunca, ever, never, terem se dado ao trabalho de se molhar um pouco de realidade, de ir às ruas e trazer de volta uma materinha de nada.

Pois que eles não se dariam ao desonroso trabalho de se preocupar com coisas tão cotidianas, comezinhas e irrelevantes às suas mentes superiores e privilegiadas. Pois que ser repórter é se rebaixar demais às coisas menores do mundo, e a rudeza das ruas não combina com o potencial intelectual exponencialmente superior que essas pessoas carregam desde o nascimento.


(pausa para respirar)




Aprendam com Pagu, crianças. É possível ser blasé sem ser insuportável

Voltando à celeuma: acredito que o que anda faltando ao ambiente acadêmico da Comunicação é respeito - verdadeiro, não o circunstancial - aos gostos, preferências e habilidades de cada um. Eu abomino os sectarismos, tão comuns aos programas de pós-graduação.

Se eu sou de uma linha, obrigatoriamente preciso lançar meu olhar aborrecido às outras. Se meu objeto é jornalismo, às favas com quem se dedica a pesquisar cinema, música ou congêneres. Deus meu, isso é pura idiotia.

Conheço gente que se nega a freqüentar determinadas disciplinas, mesmo sendo de interesse, pelo fato de que 'pegaria mal' entre seus pares. Tem neguinho que evita até as salutares e divertidíssimas conversas de corredor com colegas de outras linhas de pesquisa. Isso é ou não é uma aberração institucionalizada?

Já eu me permito gostar do que me der na telha. Jornalismo é meu tema, meu objeto e minha paixão, mas isso não me faz uma xiíta e nem me impede de ler, freqüentar e ter curiosidade acerca do que eu quiser.

O fato de determinado autor não casar com a minha pesquisa nunca foi impeditivo para que eu o lesse, comentasse e gostasse. E mais, que dominasse a teoria perfeitamente bem, se me permitem a ausência de modéstia. Se eu respeito todo mundo, por que não podem respeitar a minha vontade de querer pesquisar sobre a porcaria do fazer jornalístico?

Vivo há sete anos sob o mesmo teto com um cara que, academicamente falando, não tem qualquer afinidade teórico-bibliográfica comigo. Li todos os livros que ele tem nas estantes. Ele também consulta os meus. E ninguém vê o outro como 'menor' por caminhar por vieses teóricos tão distintos.

Recado do coração: ninguém é obrigado a comprar jornal, a acessar site noticioso ou a ler artigos acadêmicos sobre o jornalismo. Se alguém apresenta ânsia de vômito com tudo o que se relacione a essa temática, basta não ler, não acessar e não assistir. Seria apenas perda de tempo fazer algo a contragosto.

Por fim: deixem aos idiotas pueris e comezinhos como esta que vos tecla a tarefa inglória de se preocupar com uma tema tão abobalhado como o jornalismo. Assim, todo mundo fica feliz e deixa de perder tanto tempo com a vida alheia.

E garanto que, se quiserem discutir Truffaut comigo, terão uma interlocutora à altura. É que tenho um ótimo professor em casa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

de quem é a criança?

o jornalismo não é tão feio quanto o pintam! ;)

Quem 'faz' os jornais hoje em dia? Quem indica as pautas e define a moldura dos textos? Participem da enquete aí ao lado, no canto superior à direita, sobre quem dá as cartas no jornalismo impresso contemporâneo. E aí, quem tem ingerência sobre essa criança?

domingo, 14 de setembro de 2008

matriz e filial


Em dezembro do ano passado, conforme devidamente registrado neste post, eu dava início a uma matriz de critérios que me orientassem acerca da definição sobre os elementos de apuração em textos jornalísticas.

Com a contribuição de alguns leitores, a 'lista' de dez itens foi elaborada. Apresentei esta idéia de construção de matriz no congresso da Intercom, em Natal (no dia 05 de setembro), e a discussão rendeu ótimos frutos.

Ainda muitíssimo calcada em elementos empíricos, minha tarefa consiste agora em revestir os critérios de embasamentos teórico-científicos e, assim, reforçar a aplicabilidade dessa matriz. Segue, abaixo, a descrição dos três primeiros elementos:

Como diz a composição de Lúcio Cardim, "quem sou eu para ter direitos exclusivos sobre ela?". Entonces, espero contribuições de vossas senhorias para o incremento e reforço da nossa matriz de critérios de elementos de apuração no jornalismo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

como quem partiu ou morreu


hoje é daqueles dias em que me sinto mesmo numa roda-viva buarqueana, que me fez "estancar de repente" ao mesmo tempo em que "o mundo cresceu". amanhã passa. se tardar, é porque já passou e eu nem senti.

quando voltar à normalidade, o jornalismo torna a ser tema neste blog. hoje, perdoem-me, mas às favas com o fazer jornalístico, que eu quero mesmo é entrar debaixo do cobertor e só sair quando a tempestade for embora.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Aqui me tens de regresso...


Se alguém manteve a paciência e vez por outra acessou este espaço nos últimos dois meses, agradeço pela delicadeza e informo que voltei para ficar. Retornei à terrinha, retomei a pesquisa e os estudos, e a vontade de 'socializar' meus percalços e descobertas acadêmicas está maior do que nunca.

Hoje participei de uma conversa com Sylvia Moretzsohn, no auditório do PPGCOM da UFPE. Já tinha lido, de uma tacada só, a tese de doutorado (que virou livro) da pesquisadora - Pensando contra os fatos: Jornalismo e cotidiano, do senso comum ao senso crítico -, e foi como um soco de direita no estômago.

Acredito que ela entende o jornalismo da mesma maneira com a qual eu tenho pensado e encarado. O fazer jornalístico desvinculado dos maniqueísmos, que criam uma imagem, de um lado, de atividade extremamente constrangida e podada pelo 'sistema' e, por outro, de uma profissão liberta das amarras estruturais. Moretzsohn consegue enxergar instantes de 'fissuras', brechas nas quais é possível a realização de um trabalho criador e que pode contribuir para se alcançar o quimérico (?) esclarecimento do público. Recomendo a todos a leitura dessa obra, sobre a qual discutimos hoje.

Uma 'palhinha' da conversa pode ser conferida no sítio http://www.ufpe.br/jornalismo, um trabalho de cobertura feito pelos alunos de graduação em Jornalismo Luísa Ferreira, Guilherme Carréra, Diana Melo e André Simões (que, mais uma vez, se voluntariaram para fazer a cobertura em tempo real de um evento promovido pelo nosso Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade).

Sobre esse 'jornalismo possível', gostaria muito de ouvir vocês. E aí, meu povo, vocês acham que dá para fazer jornalismo com as ferramentas, espaços, constrangimentos e restrições que temos atualmente? (ou melhor: que sempre tivemos)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ao mundo, pois

Dentro de alguns dias embarco numa viagem 'de retorno', após um hiato de sete anos - que passaram chispando, quase não me dava conta. Mais de 2.500 dias sem viajar não sendo a trabalho; quase 3 mil noites e um oceano que me separam do destino dessa viagem.

Até lá, preciso deixar muita coisa pronta e, naturalmente, finalizar todos os preparativos. Sim, este blog ficará órfão por alguns dias. Mas sempre que me sobrar um tempinho e uma conexão, volto aqui para contar as novas sobre minha tese. Quero aproveitar a oportunidade para fazer pesquisas n'algumas bibliotecas também.

Estarei de volta em agosto, com (des)gosto de voltar. Sobre as minhas andanças, postarei impressões e historietas curtas no Olhos Novos. Que vocês também tenham boas e merecidas férias.

domingo, 29 de junho de 2008

Descampado


Fruto da disciplina Jornalismo Investigativo, que tive o prazer de conduzir neste semestre na UFPE, 28 estudantes, em sua maioria do 3º período, fizeram 'barba, cabelo e bigode' de uma extensa reportagem. Pauta, apuração, entrevistas, imagens, redação, edição e checagem ficaram a cargo desses moços e moças, que cumpriram a tarefa de 'radiografar' o campus da Universidade.

Passaram por todos os percalços do processo. Chás-de-cadeira, pautas furadas, resistência a entrevistas, dificuldade no acesso a informação. Também sentiram o gostinho da apuração bem feita, do texto fluindo, do resultado estampado na tela, prontinho.

Até tiveram uma audiência com o reitor, para explicar as razões e propósitos das mais de 70 matérias produzidas.

O Descampado, pois, está no ar. Entrem, que é de graça e não dói, e conheçam o primeiro trabalho de reportagem desses jovens repórteres.

sábado, 21 de junho de 2008

lendas urbanas não perecem

Assim como os Highlander e os diamantes, as lendas urbanas são eternas

Circulou esta semana, na lista de discussão da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), um comentário interessantíssimo a respeito da crença e - do que é pior - propagação de lendas urbanas pela imprensa.

Muito recentemente, o Observatório de Imprensa noticiou sobre um texto que seria, supostamente, de autoria de uma publicação de Maceió, que trazia uma coleção de imprecisões e absurdos histórico-político-econômicos a respeito de Lisboa.

Por exemplo: "O curioso é que 2/3 da capital portuguesa desapareceram após a II Guerra Mundial, mas o primeiro ministro de então, Marquês de Pombal, providenciou a recuperação das ruínas, com orientação de excelentes arquitetos, preservando a originalidade das construções."

Essa história rola pelo menos há quatro anos, mas até agora ninguém conseguiu confirmar se o texto saiu mesmo na tal de revista alagoana e, o que é pior, se não se trata de uma piada com requintes de humor da mais alta estirpe. Se há jornalismo, o mínimo que se poderia fazer, antes de espalhar essas pérolas, é investigar.

Se não se encontrar comprovação, não haveria como vaticinar a autoria, a efetiva publicação e, muito menos, a veracidade desse trem.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Da Fuzarca


SPORT, SPORT, SPORT! - TimAÇO

O Leão
(Vinícius de Moraes)

Leão! Leão! Leão! Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação

Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda
Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro

Leão! Leão! Leão! És o rei da criação
Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna
Leão! Leão! Leão! Foi Deus quem te fez ou não
Leão! Leão! Leão! És o rei da criação

O salto do tigre é rápido
Como o raio, mas não há
Tigre no mundo que escape
Do salto que o leão dá
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte
Pois bem, se ele vê o leão
Foge como um furacão

Leão! Leão! Leão! És o rei da criação
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não

Leão se esgueirando à espera
Da passagem de outra fera
Vem um tigre, como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando aquilo
Quando se cansam, o leão
Mata um com cada mão


(Para não fugir da temática: a transmissão do jogo quase ter se limitado a mostrar, incessantemente, a torcida do Corinthians - enquanto o caldeirão da Ilha do Retiro fervia - foi no mínimo de amargar!)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Clamor de inocência

Devo, não nego. Pago (ou volto a postar com freqüência decente) quando puder. Caríssimos, estou em grande débito com este espaço e, em conseqüência, com meus poucos - porém fiéis - leitores. Volto em breve à rotina normal. Minha gente, "não me deixem só", numa alusão a um nefasto, mas não tão longínquo, passado político.

Para ouvir ao som de:

Basta de clamares inocência (http://www.youtube.com/watch?v=8o6zm5wvcIM)
Composição: Cartola

Basta de clamares inocência
Eu
sei todo o mal que a mim você fez
Você desconhece consciência
Só deseja o mal a quem o bem te fez
Basta, não ajoelhes, vá embora
Se estás arrependida
Vê se chora
Quando você partiu
Disseste chora, não chorei
Caprichosamente fui esquecendo
Que te amei
Hoje me encontras tão alegre e diferente
Jesus não castiga o filho que está inocente
Basta, não ajoelhes, vá embora
Se estás arrependida
Vê se chora

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Febre de juventude


Hoje tive a grata oportunidade de coordenar um grupo de oito estudantes do 3º período de Jornalismo da UFPE (as figurinhas aí da foto) na cobertura, em tempo real, do I Seminário de Jornalismo Contemporâneo. Foi a primeira vez que eles participaram de uma experiência do gênero, e eu não poderia ficar mais feliz. Não só pelo resultado, que foi excelente, mas principalmente pelo comprometimento, responsabilidade, minúcia e zelo com a informação - e pela qualidade no trato dessa informação - demonstrada por esses meninos e meninas.

Sei que estou 'lambendo a cria', mas não poderia ser diferente. Quantas vezes contive o entusiasmo e o elogio para não parecer demasiado condescendente e pouco criteriosa? Pois chega de comedimentos. Parabéns à vontade de aprender, de fazer e refazer, e de experimentar o jornalismo. Que essa febre de juventude os acompanhe ao longo de todo o percurso.

E obrigada a André Simões, Bárbara Siebra, Glaucylayde Silva, Guilherme Carréra, Gustavo Maia, Luísa Ferreira, Rafaella Correia e Sofia Costa Rêgo (na edição) pela injeção de entusiasmo e pelo exemplo de jornalismo não-cordial.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A opção da dúvida


O repórter chega à redação. Não há tempo para ler os jornais. Senta-se ao computador, checa e-mails, acessa o Google. Agora é só apertar a tecla ENTER que a notícia chegará a ele. Da caixa de e-mails, dezenas de press-releases desenharão o que será a pauta do dia. Pronto, agora é só reescrever os mais importantes e, bingo, está pronta a edição do dia seguinte.

Amanhã, a rotina se repete. Poderia ser comigo. Poderia ser com qualquer um que, abraçado ao jornalismo, vive no eterno embate entre a redação e a rua, entre a facilidade dos engenhos de busca e a aridez do confronto com o mundo lá fora. Sem falar do relógio, que não pára de correr.

A descrição dessa cena fictícia foi realizada com farta dose de exagero. Mas, descontadas as hipérboles narrativas, há vezes em que realidade e ficção podem se misturar e produzir, na vida real, rotinas tão burocráticas quanto a historieta contada no parágrafo de abertura.

O tempo, sempre implacável, é senhor e juiz do processo de formação da notícia. E foi para entender as razões, incluindo o ‘fator-relógio’, que pudessem explicar a mesmice dos temas abordados pelos jornais, os textos semelhantes, o uso abusivo de informações produzidas em assessorias de imprensa, que embarquei no mundo acadêmico, através de dissertação de mestrado batizada de CTRL+C CTRL+V: O Release nos Jornais Pernambucanos. Finalizada em 2005 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, está sendo aprofundada e expandida com a minha pesquisa de Doutorado, Jornalismo Cordial.

O que me levou a pesquisar sobre o assunto tem origem, primordialmente, no fato de eu ter me reconhecido nos dois papéis – do assessor, que tem como principal compromisso mostrar o lado mais positivo de seu assessorado -, e do repórter, que se esquece do compromisso maior com o leitor ao oferecê-lo informações gestadas no interior de empresas, e que são repassadas com o menor teor crítico possível. Dessa forma, se há uma carapuça, ela certamente serviu também a mim. Procurei não usar, assim, a posição de pesquisadora como escudo contra minhas próprias constatações.

O foco da pesquisa inicial era chegar a caminhos que comprovassem se o uso de releases (matérias jornalísticas enviadas por assessorias de imprensa aos veículos de comunicação, com objetivo de divulgar fatos que envolvam as organizações assessoradas) nas redações era realmente prática corriqueira e realizada em excesso e, ainda, compreender o porquê desse ‘hábito’.

Ao longo da realização do trabalho, as hipóteses iniciais para o ‘copia e cola’ foram se apresentando – ritmo acelerado de trabalho, quadros funcionais reduzidos, busca e medo do ‘furo’ –, ao passo em que, isoladas, também não se configuravam como única explicação plausível para o que se tentava comprovar. Por que então os jornais têm feito tanto uso de informações oficiais como fonte única de informação? Confesso que, por dois anos, essa foi a cantilena dos meus dias e noites.

Os resultados que se apresentaram na catalogação dos releases enviados pela assessoria de imprensa da Universidade Federal de Pernambuco – estudo de caso que escolhi para a dissertação – serviram como exemplo de que se tem utilizado quantidade considerável de material de assessorias de comunicação nas redações, configurando-se como prova – ao menos em relação à amostragem pesquisada – de que as assessorias chegam a conduzir, em algumas edições, a produção jornalística brasileira.

No período de um mês, 66% de tudo o que foi publicado em jornais sobre a Universidade foram ‘provocados’ pelas estratégias de divulgação da assessoria. Mais ainda: 44,7% dos releases aproveitados foram veiculados com pouca ou mesmo nenhuma alteração, ou seja, a participação dos repórteres chegou a uma quase nulidade.

Diante do quadro que era apresentado, surgiu a suposição que uma espécie de conformismo estava se apoderando das redações e transformando o próprio modo de se fazer jornalismo. O dia-a-dia dos jornalistas e a dinâmica de trabalho estavam criando uma acomodação. Acomodação que leva o repórter a não contactar nem mesmo as fontes indicadas no release para confirmar as informações repassadas. Acomodação que instrui o profissional a não sair da redação para ir em busca de notícias, a ficar na dependência apenas de e-mails e, quando muito, telefonemas.

JORNALISTA CORDIAL - Numa tentativa de encontrar explicações para esse comportamento, a pesquisa tomou de empréstimo o conceito de ‘homem cordial’ de Sérgio Buarque de Holanda para descrever a persona do ‘jornalista cordial’ – uma categoria profissional que se caracteriza pelo não-cumprimento da função social de investigação e fiscalização, que opta por agradar a todos e evitar o conflito, esquivando-se de ir à busca das notícias onde elas realmente acontecem (na rua) e contentando-se em atuar como mero copiador de releases.

Seria muito simplista nomear ‘vilões e mocinhos’ na busca pelas causas do uso tão premente de informações oficiais como fonte única na imprensa. O repórter não poderá ser de imediato taxado de desleixado – pois que o profissional mal pago, com excesso de trabalho e prazos a cumprir, sem estímulo para capacitação profissional e, por isso mesmo, insatisfeito no trabalho, talvez não consiga se dedicar à qualidade das informações publicadas no seu jornal. Ao assessor, tampouco, deveria recair a ‘culpa’, uma vez que, salvo exceções, ele não terá o poder para decidir pelos editores e repórteres o que deverá ser a pauta do dia. Se as sugestões dos assessores viram notícia nos matutinos é porque assim o permitiram os jornalistas que trabalham nos veículos. O assessor, assim, só está fazendo – e competentemente – o seu trabalho.

É ao repórter que cabe a responsabilidade pelo texto que escreve e as informações que apura – ou deixa de apurar. A relação assessor versus jornalista ‘de batente’ nunca poderia ser apenas de parceria – o papel do segundo é checar, duvidar, investigar, escrever e melhorar o que escreveu. Se não, está fadado a transformar-se em mero copiador de releases.

Complexa e perigosa é a tentativa de vislumbrar soluções imediatas para o problema. Reformulações são necessárias, é certo, mas muito difíceis de serem implementadas a curto prazo, como mais tempo de apuração, investimento em capacitação profissional e (re)valorização da reportagem nos jornais. São medidas indispensáveis, mas que envolvem muito mais do que boa vontade dos profissionais.

O grande propósito do meu trabalho é que as considerações a que ele chegou - os jornais têm feito uma utilização excessiva de releases, de modo a depender deles para se pautar – sejam levadas ao conhecimento de quem faz parte desse ‘jogo’: repórteres, editores e assessores.
E, claro, há também o público. Único envolvido no imbróglio que ainda permanece desconhecendo a prática. Creditar a informação que vem das assessorias já seria um bom começo.

Ao leitor, portanto, que reste ao menos a opção da dúvida.

(Artigo originalmente publicado no Pernambuco - Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado e reproduzido no Blog de Jamildo)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

o tempo e o vento


Caríssimos, estarei fora de órbita nesta semana. A vontade de escrever aqui é grande, mas o tempo está jogando contra e o vento, desfavorável. Volto com a próxima brisa. Até a sexta-feira.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

só por hoje...


...não vou falar sobre jornalismo. perdoem-me, mas é por uma razão nobre. nobilíssima. a maior de todas elas.

o desenho aí de cima é de autoria da minha primogênita. três anos de idade e atitude. ela me entregou hoje, na volta da escola, com um beijo estalado de acompanhamento.

uma das melhores coisas de ser mãe é poder vivenciar a nossa pieguice em toda a sua plenitude, sem precisar fazer qualquer concessão ao bom-senso. afinal, toda mãe porta uma credencial vip de acesso ao melodrama.

é a primeira vez que ela me retrata de uma forma identificável (ao menos no que se refere aos parcos recursos de imaginação dos adultos). e ao lado do sol, que ela adora e saúda logo quando abre os olhinhos ao mundo, pela manhã.

agora, permitam-me atingir o ápice da corujice: reparem como ela me desenhou maior do que o sol! tem presente melhor do que esse? faz valer cada uma das mais de 1095 noites que eu tenho passado sem dormir direito.

(só para não fugir ao tema: semana passada, 'flagrei'-a imitando uma apresentadora de telejornal. depois, me pediu que não desligasse a tevê, pois ela iria "assistir às notícias". será que a paixão desenfreada pelo jornalismo está no código genético?)

domingo, 4 de maio de 2008

Sobre a necessidade do espanto


Contador de homicídios no Recife: para se lembrar o que se insiste em esquecer

Sempre tive em mente que chegaríamos a um ponto sem volta, 'of no turning back' (como diriam os que fizeram cursinho de inglês), quando perdêssemos de vez a capacidade para o espanto, para a estupefação. E esse momento chegou há muito, nós poucos é que ainda insistimos em não admitir.

Confesso que por muito tempo vesti comodamente o manto da normalidade, que me permitia conseguir dormir à noite após assistir a tantos disparates, a ver tantos descaminhos. Hoje, não conseguiria levar adiante um terço das tantas matérias policiais que fiz nas minhas primeiras incursões no jornalismo, já se vai mais de uma década.

Quantas vezes não ensaiei um sorriso para desdenhar de colegas inocentemente estupefatos, que propunham pautas furadas, natimortas, a respeito da profusão de meninos de rua nos sinais de trânsito e de mendigos nas calçadas? Tolos, pensava eu, em acreditar que histórias como essas, tão comuns e batidas, suscitariam interesse nos leitores. Como eu imaginava, elas realmente sequer chegavam à mesa do editor.

Guardei todas as más lembranças numa caixa cerrada, numa área pouco visitada da minha cabeça. Não são poucas. Tampouco fáceis de digerir. Por muito tempo, consegui evitá-las. Agora, elas começaram a escapar do esconderijo. Vêm para me assombrar. E para me lembrar de que eu nunca deixei de me espantar, mesmo quando usava o não-espanto como estratégia profissional.

Uma delas voltou recentemente, apesar de eu acreditar tê-la descartado da memória na mesma tarde em que aconteceu. A 'personagem' (que jargão mais infeliz) de uma pauta, menininha vítima de uma estúpida, irracional e covarde violência sexual. Como poderia ousar acreditar haver realmente esquecido a sensação de soco no estômago que tive ao ler a placa pendurada na caminha do hospital? Era o meu nome ali escrito, com todas as letras, tal e qual na certidão.

Há um tempo, ouvi um depoimento de um jovem jornalista (já citei a situação neste post), visivelmente desapontado, que me reacendeu a estupefação. Para proteger uma fonte de uma muito provável e séria represália, ele havia combinado com o entrevistado de não mostrar seu rosto. Mesmo com essa orientação do repórter, a edição optou por desfazer o acordo. Ao reclamar, desesperado, com o responsável pelo absurdo, ouviu um cínico "bem-vindo ao jornalismo" como resposta.
Como me arrependo de ter, um dia, desdenhado dos estupefatos. Pois que a cordialidade jornalística anda de mãos dadas com a falta de espanto.

(Desde a última quarta-feira - 30 de abril -, o Recife conta um contador de homicídios instalado numa movimentada avenida. Iniciativa dos editores do PEbodycount. Um grupo de jornalistas que nunca deixou de se espantar. Houve quem os acusasse de traidores, por "contribuir para a fuga de turistas". Tomara, de coração, que também esses venham a se juntar ao coro dos estupefatos, num futuro próximo).

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Somos todos machistas


Ronaldo Fenômeno num motel com travestis. É notícia? Acho que sim. Flagar o mesmo Ronaldo numa delegacia, após confusão com os mesmos travestis, tem apelo noticioso? Não sejamos hipócritas, é claro que sim, ainda mais. O cara é conhecido no mundo todo, ídolo do futebol, carreira meteórica etecetera e tal.

Poderia até discutir a relevância dessa informação, mas seria infrutífero. Todos os argumentos que eu pudesse usar cairiam n'água ante o grande apelo que o fato, por si mesmo, teria de um jeito ou de outro. Se fruto da insaciável curiosidade humana ou da atração irreversível e irresistível que ídolos, mitos, criações midiáticas e afins suscitam nas pessoas, a verdade é que não há quem ignore por completo uma notícia desse naipe.

Assim posto, chego ao ponto-chave da minha argumentação: a cobertura jornalística desse caso tomaria um rumo diferente caso o jogador houvesse se envolvido em confusão semelhante, mas com prostitutas? De todo jeito, o fato seria imensamente explorado, como está sendo agora. Isso não se discute. Mas observemos pela ótica do mito do 'macho'.

Não foram poucas as vezes que Ronaldo povoou a imprensa com fotos ao lado de modelos, namoradas, casos, cachos e one-night-stands. Os textos que acompanhavam as imagens, apesar do tom crítico e por vezes moralista, acabavam corroborando com a lógica do 'homem de carne e osso'. Algo como "o rapaz é rico e dono do próprio nariz, deixa ele se divertir com a mulherada". Supostos flagras de traições protagonizadas pelo craque foram inúmeras vezes noticiadas, e o discurso oculto era quase sempre o mesmo. "Safado, cabra-macho, garanhão!" era o que saltava aos olhos.

Agora acredito que o discurso adotado tenha, sim, tomado outro rumo. A própria resposta do jogador é sintomática: "eu me enganei, achava que se tratava de mulheres". Ah, então melhorou. Porque se antes ele não precisava se 'defender', pois as 'acusações' lhe eram leves, ressaltando sua imagem de 'pegador', agora a situação é diversa. A acusação é grave. Isulta a macheza. Duvida da sua masculinidade, como diriam os cassetas. Opinião semelhante à minha tem o deputado italiano Vladimir Luxuria (não conheço sua plataforma política, mas a alcunha tem lá a sua criatividade), que é transsexual.

O fato de um ídolo futebolístico se envolver numa confusão, de caráter sexual, com travestis, teria a mesma relevância (ou falta de) de um imbróglio aos mesmos moldes, só que com mulheres. Estou errada?

Engraçado é que pouco se falou sobre o suposto uso de drogas no qual Ronaldo estaria envolvido. As matérias se centram mais no escândalo, na 'vergonha' de ter se metido com travestis, a 'mancha' na biografia do jogador. Sobre o consumo de drogas, se é que houve mesmo, o jogador, por ser atleta, deveria mesmo se pronunciar.
Mas e sobre a noitada? Justificativas, quando muito, ele teria que dar apenas à noiva, coitada. Ao resto do mundo, Ronaldo não deve nada. Mas daí a conseguir convencer o mundo disso, são outros quinhentos.

sábado, 26 de abril de 2008


O Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, promove, em 28 de maio (quarta-feira), o I Seminário de Jornalismo Contemporâneo, no mini-auditório do Centro de Artes e Comunicação da instituição.

O evento, que contará com a participação de pesquisadores das universidades federais de Sergipe, Paraíba e Pernambuco, tratará de temas como jornalismo e cotidiano, novas tecnologias, objetividade e pesquisa/metodologia.

As inscrições, gratuitas, serão realizadas de 06 a 20 de maio, na secretaria do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE. Vagas limitadas. Informações: (81) 2126.8960 ou pelo e-mail jornalismocontemporaneo@grupos.com.br

Programação
28/05/2008

Manhã - das 9h às 12h

Estudos, Teorias e Metodologias do Jornalismo
Mediador: Prof. Dr. Alfredo Vizeu, vice-coordenador PPGCOM UFPE
Prof. Dr. Carlos Franciscato, Departamento de Comunicação UFSE, presidente da SBPJor: Prof.

Jornalismo e Objetividade
Dr. Josenildo Guerra, Departamento de Comunicação UFSE:

Tarde - das 14 às 17h

Jornalismo e Cotidiano
Prof. Dr. Wellington Pereira, vice-coordenador PPGCOM da UFPB e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia

Jornalismo e Novas Tecnologias
Prof. Dr. Afonso Jr, Programa de Pós-Graduação em Comunicação/UFPE

Local: mini-auditório do CAC - UFPE, Recife
Promoção: PPGCOM/UFPE

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A estúpida 'obrigação' de ser voz dissonante

Jornalismo-Geni: "Ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir!"


Não sou pelega. Não olho o mundo pelas lentes patronais. Politicamente, continuo insistindo a andar 'às esquerdas' do caminho. Procuro assumir uma postura bastante crítica em relação ao meu objeto de estudo. Por vezes, excessivamente até.

E sempre foi assim, desde que o meu mundo é mundo, muito antes do "tempo de eu menina" (como diria Manuel Bandeira), em que me vi entrevistando trabalhadores no alto de um prédio em construção e descobrindo que, sim, o ofício de repórter havia me fisgado para sempre.

Contudo, o fato de ser drummondianamente gauche na vida não deveria me obrigar a ver tudo com os olhos turvos do enfado. Do descontentamento. Da crítica raivosa e indiscriminada.

Digo isso porque percebo, vez por outra, olharares de desaprovação quando encontro exemplos de bom jornalismo. Quando enxergo além do horizonte determinista. Quando me recuso a apontar um plano maquiavélico da 'mídia e do sistema' como raiz de tudo o que sai, ou deixa de sair, na imprensa.

Naturalmente, na maior parte das vezes - até por necessidade metodológica - eu encontro as manchas, coloco o dedo na ferida, observo, reclamo e discuto os (des)caminhos da profissão. O que eu quero dizer é que, para ter um olhar crítico, não se precisa necessariamente perder o bom senso. Há que se reconhecer o erro. Mas também os acertos.

Sendo assim, gostaria de reivindicar o meu direito de não precisar me regozijar ante desvios jornalísticos. De encontrar e comentar belas peças noticiosas. De não defender que o jornalista é apenas um artífice do 'capital'. De não precisar ser maniqueísta, ora bolas!

De achar que é possível encontrar um entremeio, um lugar em que se dá para realizar, de vez em quando, uma reportagem legítima. Mesmo convivendo com as muitas limitações de uma empresa jornalística, com sanções, censura e constrangimentos. É difícil, muito difícil. Mas não impossível.

Ao menos, concedam-me o direito universal de acreditar!