quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Dois pesos, duas medidas


Um homem morreu em condições ainda não esclarecidas, esta semana, no Recife. Foi encontrado morto num conhecido 'inferninho' da cidade, bastante freqüentado por turistas europeus em busca de sexo pago.

Os poucos leitores que se aventuram a acompanhar os três jornais de circulação diária da capital pernambucana podem se perguntar, assim como eu, o porquê de apenas um dos matutinos ter informado, na matéria sobre o caso, que o estabelecimento se tratava de um inferninho.

Apenas o Diario de Pernambuco contou a história com esse - ao meu ver, nada descartável - detalhe. Como o próprio DP reporta, a principal função do local é clara, nada escondida, inclusive declaradamente aberta no site da boate-hotel-bar (logo na home, o texto avisa - em alemão ou nas outras três línguas disponíveis, que o local não é recomendado para famílias com crianças ou turistas que procuram um ambiente tranquilo).

A Folha de Pernambuco e o Jornal do Commercio fizeram cara de paisagem e trataram o estabelecimento como um barzinho aprazível e insuspeito.

Tenho ojeriza a teorias da conspiração. Também abomino a postura de alguns críticos que procuram cabelo em ovo. Acho muitíssimo exageradas algumas posturas, que a tudo culpam o 'sistema econômico'. Mas, diante dessa situação, baixo um pouco a guarda e me atrevo a perguntar: por que esse silêncio, ora bolas?

Será que esse respeito e discrição - legítimos caso fossem sempre utilizados pelos jornais, independentemente sobre quem se estivesse falando - teriam acontecido se a vítima em questão não fosse de classe média, não morasse em bairro nobre e não tivesse uma profissão tradicional?

Na minha concepção naive, o respeito com o qual o caso foi tratato deveria valer sempre, para todo mundo. Vocês devem se lembrar do recente post sobre o caso da moça desaparecida, que teve a vida amorosa revolvida no próprio DP.

Algumas coisas nunca mudam. Ao menos no Brasil, onde a lógica do "sabe com que você está falando" ainda reina, impávida, nas nossas mentes, atos e posicionamentos.

2 comentários:

eduarda disse...

Eu concordo, algumas coisas nunca mudam mesmo. Mas é assim sempre, com todo mundo, em qualquer país, o Brasil não é um privilegiado. Nem os posts mudam. Percebe como esse teu post de agora tem a ver com o anterior, que tratava da bebida e do cigarro? Dois pesos e duas medidas ali também. Íncrível como as histórias se repetem, não é mesmo?

p.s.: tou viciada nisso aqui. ;)

Adriana Santana disse...

Pois é, Eduarda, temos que comer muito feijão ainda... E que bom que o blog tem efeitos viciantes! :)