sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Vai um release aê, tio?


Recentemente, vocês devem ter lido por aí (se não, cá está link da matéria no Estadão), a France Presse baixou uma norma para que os coleguinhas dessem um tempo no uso da Wikipedia e do Facebook para produzir matérias. A justificativa passava pela questão da confiabilidade das informações veiculadas pelas novas fontes. E, cá pra nós, entre sair à rua e acessar a Web, muitos preferem a segunda opção.

Hoje, recebo informação do jornalista Marcelo Soares, do blog E você com isso?, a respeito de um serviço que está 'bombando' a rede: a Business Wire. Que, em resumo, é uma grande difusora de press-releases. A empresa cadastra seu material e espera ele circular nas melhores caixas postais do ramo. Nada contra e nada novo. O Comunique-se disponibiliza esse serviço e muitas outras empresas são dedicadas a isso.

O nó da questão é, como disse antes, que o serviço parece estar 'bombando'. O que pode vir a significar que muita gente - e aí incluo coleguinhas - deve estar usando o site como fonte de informação. A Read Write Web reporta que a BW ocupa a 32ª posição no ranking da Techmeme Leaderboard - o Techmeme é um site que rastreia as informações mais relevantes sobre tecnologia, linkando para os sites-fonte de informação. A BR está deixando alguns sites-referência comendo poeira, a exemplo do Guardian (45ª posição) e o Washington Post (69ª). Acabei de checar listagem, e a BR subiu para a 28ª posição.

Não vejo problema em fazer do release mais uma fonte de informação, muito pelo contrário. Há releases que deixam muita matéria de veículo com cara de receita de bolo. O pulo do gato é não usar o danado como fonte única, obviamente, mas como ponta-pé, acréscimo, coisas assim. Mais do que isso, é esmola.

E esmola, vocês sabem, vicia o cidadão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

imposturas intelectuais


Dia desses, li uma matéria bem amarrada, super redondinha e bem escrita, com vários depoimentos acerca da proibição de cigarro e congêneres em quaisquer ambientes - aqui e alhures. Um deles, em especial, me deixou encafifada, tal qual diria a Luluzinha.

Um intelectual, contrário à medida, bradava que o ato de fumar estava diretamente ligado a um tempo em que nosotros escrevíamos, pensávamos, amávamos e até viviámos melhor. Isso mesmo, vocês não leram errado.

Para o entrevistado em questão, a fumaça teria esse poder mítico tamanho, capaz de deixar afluir o talento, de fazer aflorar as mais legítimas inspirações artísticas. Algo como uma versão fumê das musas da antiguidade clássica.

Concordando ou não com o argumento, e aí coloco o jornalismo na conversa, comecei a me indagar sobre o papel do repórter em situações como essas.

O autor da matéria em questão colocou, logo em seguida a esse depoimento, uma declaração de Danuza Leão, fumante, mas que se afirmava solidária à causa anti-tabagista. Não sei, mas ainda assim senti falta de algum depoimento que comentasse a declaração do intelectual, talvez um pesquisador ligado à área de comportamento humano para explicar se essa relação prazer do cigarro x inspiração teria algum fundamento, ou então que não passaria de balela das grandes (voto nessa alternativa). Algo que ao menos movimentasse a discussão em torno da declaração tresloucada do cidadão.

Sabem, acho que devo estar ficando velha pr'algumas coisas. Noutros tempos, morreria de rir ao ler as aspas desse cara. Hoje, fico me perguntando o que se passa na cabeça das pessoas para soltarem tamanha asneira quando avistam um gravador, microfone ou bloquinho. Será que é a síndrome do "quero ser eternizado por minhas frases de efeito e estilo cabeçóide"?

(o título deste post é uma referência ao ótimo - e polêmico - livro Imposturas Intelectuais, com o qual já dei sonoras gargalhadas)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

"Grave e estável"

Lendo alguns veículos de língua portuguesa sobre o recente e triste atentado ao presidente do Timor-Leste, José Ramos-Horta, percebi que boa parte destaca a expressão médica "grave e estável" para descrever o estado de saúde do ganhador do Nobel da Paz de 1996 (compartilhado com o bispo Carlos Filipe Ximenes Belo).

Entendo que os boletins médicos queiram expressar que, apesar da gravidade, o quadro geral se mantém em estabilidade, sem grandes alterações. Vá lá... Mas acredito que a expressão deveria ser acompanhada de um mínimo de explicação. Tarefa, naturalmente, não dos médicos, mas de nosotros.

De toda forma, colocar num mesmo nível a 'gravidade' e a 'estabilidade' soa, no mínimo, estapafúrdio. Assim como dispor na mesma vala "calmo" e "possíveis distúrbios", como reportou o blog Timor-Online.

Vocês concordam? Ou será que estou sendo preciosista ou ranzinza demais? (Caso positivo, relevem, deve ser fruto da segunda-feira).


Resta esperança:

Apropo: abaixo, letra da canção East Timor, libelo a favor da libertação do então Timor-Leste da Indonésia.

(por Henning Kramer Dahl,Havard Rem,Morten Harket)

EAST TIMOR
Sandalwood trees are evergreen
Cut them down
Plant coffee beans
Build no schools
Construct no roads
Mark them as fools
Let ignorance rule
Leave them stranded on their island
Treat them to the tune of silence
Red is the cross that covers out shame
Every Kingdom, every land
Has it's heart in the common man
Silently the tide shifts the sand
Bury my heart on East-Timor
In coral sands
On golden shores
Buried are those
Who lived their lives
No place to hide for
Father and child
Leave them stranded on their island
Treat them to the tune of silence
We shake the hands that kill and forgive
Every Kingdom, every land
Has its heart in the common man
Silently the tide shifts the sand
Bury my heart on East-Timor
On barren graves
Where flowers won't grow
Blooms our Red cross lovingly
This nightingale deed
So we can be free
Stranded on their island
This army of the silent
We toast our own goodwill and forget
Every kingdom, every land
Has its heart in the common man
Silently the tide shifts the sand

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Pânico no sistema nervoso

imagem: www.sitedoescritor.com.br Castro Alves (Muritiba, 1847 - Salvador, 1871)

Uma das mais engraçadas historietas que já circularam nas rodas de jornalistas de Pernambuco dava conta de uma personagem que, em entrevista a uma rede de televisão, reclamava do "sistema nervoso que o médico havia colocado" no marido.

Segundo a aflita esposa, antes de fazer determinada cirurgia (não me lembro qual tipo), o cidadão era pacato, tranquilo, quase angelical. Depois da intervenção, no entanto, o pobre coitado passara a "sofrer de sistema nervoso". Eu assisti à matéria, que foi ao ar no final dos anos 90, e quase fiquei também com sistema nervoso, de tanto rir. Eu sei, a situação era trágica - mas tinha lá sua boa dose de comicidade.

Ontem, assistindo a uma emissora local, vi um policial sendo entrevistado a respeito da prisão de suspeitos de assalto. No final da conversa, ele resolve explicar como havia encontrado o bando: "Eles estavam esperando por um mecânico, pois o carro deles entrou em pânico". Juro que ouvi isso.

O riso foi inevitável, mas a vontade foi de chorar.

Sei que, nesse caso, os coleguinhas não tiveram culpa alguma. Mas, por alguma louca associação, lembrei-me do desespero de um repórter iniciante que, ao presenciar o comportamento de um colega, que demonstrava total ausência de ética e desrespeito com a fonte, ouviu um "bem-vindo ao jornalismo" como justificativa.

Sei que posso incorrer no erro de estar eternamente presa a uma visão boba, naïve e descolada da dura realidade, mas ainda prefiro me agarrar à ética em tempos de desespero.

Tal como Castro Alves, no poema O Laço de Fita, prendi-me a ela e não quero soltar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A casa, a rua e o outro mundo


Por sugestão - e empréstimo - do meu orientador, estou (re)lendo Roberto DaMatta, desta vez sem a obrigação da leitura, o que torna a experiência ainda mais agradável.

Recomecei pelo clássico A Casa e a Rua. Havia esquecido como o antropólogo consegue dizer tanto, e quase tudo (o que não é pouco!) sobre a alma brasileira, numa escrita simples, sem rodeios, macia e, por que não dizer, malemolente.

Na minha humilíssima e igualmente leiga opinião, uma das sacadas mais geniais do pensamento social brasileiro reside na idéia de analisar o País sob a égide da tríade 'casa, rua e outro mundo'.

Numa síntese bem rasteira do pensamento do antropólogo, ele defende magistralmente que não se pode ter uma visão completa do fazer e ser brasileiros se não tivermos em mente que vivemos e convivemos sob essas três instâncias. O que, conseqüentemente, leva a sociedade brasileira a adotar ao menos três comportamentos e três éticas concomitantemente.

Ainda mais genial é a constatação que a sociedade brasileira é relacional, ou seja, as mobilidades só existem mediante as relações de compadrio, de amizade, de conhecimento. Assim, no Brasil, o que vale mais é a pessoa, e não o indivíduo.

E o melhor de tudo é que, ao contrário dos críticos ferrenhos, não há qualquer nesga de ranço ou mesmo asco com o país que analisa. As mais duras constatações, como as presentes ao avaliar um dos nossos traços mais tétricos (para usar uma expressão dele) - o famigerado "sabe como quem você está falando?" -, são postas como leituras do Brasil, nunca como manifestos contrários ao lugar. Posso estar errada, mas lendo seus ensaios, o que parece emanar do autor é um profundo, sincero e declarado amor por esse complicado pedaço de chão.

Impossível não fazer uma associação às avessas com boa parte dos estudos sobre o jornalismo que vejo por aí - dentro e fora da Academia - , os quais demonstram uma intransigência, raiva e recalque (hoje estou hiperbólica, mas nem ligo) pelo objeto estudado.

Mas isso é tema para outro post. Inté!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Até quarta, Isabela


Caríssimos, amanhã estou de volta, na quarta-feira que é de fazer chorar. Estou recarregando as baterias para retornar à pesquisa e a este blog com gosto de gás. Aguardem.

(o título deste post se refere ao belíssimo livro de Francisco Júlião, líder das Ligas Camponesas, com as as cartas que ele escreveu à filha, que ainda não conhecia, durante o cárcere, à época do regime militar).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

É frevo, meu bem!

crédito: do site Carnaval de Pernambuco


Meu incômodo com a cobertura carnavalesca parece arrefecer com os anos, de cansaço, mas confesso que ainda me irrita a insistência de alguns veículos em concentrar o tema em trios elétricos de Salvador e escolas de samba no Rio.

Esse comentário poderia ser um ranço bairrista, mas nem é. Abandonei o bairrismo há pelo menos uma década e, ao contrário de parte dos meus conterrâneos, gosto muitíssimo de de SSA e o Rio, claro, lindo continua.

Mas creio que não é pedir demais que o olhar jornalístico seja levado na direção do vento nordeste, para que se veja como o chão ferve na pisada da "mistura colorida da massa", conforme eternizado por Alceu Valença.

E olha que não me refiro a uma forma politicamente correta de dar voz aos 'marginalizados' do 'Norte' (que nem é o nome correto da Região, mas parece que a burra convenção de colocar todos numa só saco amorfo virou praga). Não, não é isso. A questão é jornalística mesmo, camaradas.

Afinal, não é mais do que legítimo conferir o que leva milhões de almas a "sentir a embriaguez do frevo" nas ruas, sem pagar um tostão e não passar pela situação humilhante de se espremer - dentro e fora - de cordões de isolamento?


Querem fatos? Pois os terão:
  1. No Carnaval de Pernambuco, são 10 as cidades-pólo oficiais de folia (em todo o Estado, na Zona da Mata, Agreste e Sertão)

  2. Só no Recife, o folião dispõe de nove pólos centrais de festa, distribuídos entre todos os gostos e ritmos. A saber: Recife Multicultural (no Marco Zero da cidade), das Fantasias & Infantil (as famílias e crianças vão mesmo), Mangue (herança do movimento mangue-beat), Todos os Frevos (não precisa nem dizer), Agremiações (mais de 200 agremiações, entre bois, ursos, troças, clubes de frevo e bonecos, blocos de pau e corda, tribos de índios e escolas de samba), Todos os Ritmos, Afro, Tradições e ainda oito células descentralizadas em bairros e comunidades da capital.

  3. Em Olinda, ah... Que dizer de Olinda? Deixo por conta de um blog criado por um grupo de alunas minhas, nesta postagem divertidíssima, explicar um pouco o que se encontra por lá.
Aos que ainda não conhecem, uma breve lista d'algumas das manifestações populares que tomam conta das ruas, becos, vielas e avenidas desse meu torrão natal:


Papangus - Caretas - Bonecos Gigantes - Caboclinhos - Maracatus e mais Blocos, troças, clubes, carros alegóricos, ursos, bois, tribos, escolas de samba e Frevo, meu povo. Muito frevo.

Pra terminar, um aparte pessoal. Em Vitória de Santo Antão, a 50 quilômetros do Recife, mesmo ante tanta descaracterização e algumas insistências com trios, o Carnaval ainda é magistral. Na rua, na fervura do asfalto, atrás das orquestras, o frevo reina. Ainda bem.

(O título lá e cima se refere a um frevo-canção de Capiba, compositor pernambucano que já se foi para mundos outros. Para ouvir, fazer o passo e pedir bis). Ei-lo:

É frevo, meu bem
(Continental, 1941)

Pernambuco tem uma dança,
Que nenhuma terra tem
Quando a gente entra na dança
Não se lembra de ninguém.
É o maracatu?
Não, mas podia ser.
É o bumba-meu-boi?
Não, mas podia ser.
É dança de roda?
Não, mas podia ser.
Não será o baião?
Quero ver dizer.

É uma dança,
Que vai e que vem.
Que mexe com a gente.
É frevo meu bem!

É dança de roda,
Não, mas podia ser.