sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

para não dizer que não falo das flores


Salvem, simpatias. Como amanhã é sábado e eu terei direito a um pouco, quase nada, de mordomia, deixo com vocês um texto mui grande em se tratando de Web, mas que vai valer pelas postagens de todo o final de semana. Não é só questão de comodismo, não, senhores. As mal traçadas são fruto tardio de uma palestra a que assisti, em novembro, com Maxwell McCombs, e de um posterior longo bate-papo que travei com o cidadão no Recife.

Sem falar que tem absolutamente tudo, ou mais ainda, a ver com a minha pesquisa. Deleitem-se. Ou penem, a depender do efeito causado.

É só começar.
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Revolvendo o pântano

Receitas de um senhor do Alabama para tirar o Jornalismo do coma induzido

por Adriana Santana
(publicado originalmente no suplemento cultural Pernambuco, edição de dezembro de 2007)

Já se escuta, há um tempo considerável, a cantilena da morte do jornalismo e de seus congêneres – o jornalista, naturalmente, incluso no mórbido pacote. De acadêmicos a profissionais de batente, de literatos a bloggers, de estudantes de comunicação a leitores, o discurso é uníssono. O prenúncio da morte anunciada da profissão-atividade-disciplina-sacerdócio está quase alçado à categoria de mais novo passatempo intercontinental – vide os sítios e artigos, numa procura fugaz pela Web, intitulados O jornalismo morreu, Journalism is dead, El periodismo ha muerto, Der Journalismus is tot e assim sucessivamente, até dar a volta no globo.

Esse vaticínio de uma era pós-jornalística é fundamentado, na maior parte das tessituras argumentativas, pelo fim de duas instâncias que marcaram presença em todas as teorias desenvolvidas para pensar a comunicação: a figura do emissor (na qual o jornalista se enquadraria) e a do receptor/destinatário (naturalmente, onde se encaixaria o público). Para pensadores do jornalismo da era tecnológica, como o argentino Pablo Boczkowski e os norte-americanos John Pavlik e Barrie Gunter, com as possibilidades e ferramentas trazidas pela Internet, essas duas figuras se confundem, e o antes receptor também se transforma em produtor de notícias. Enfraquecendo ou, no mínimo, modificando sobremaneira o papel do jornalista. “Qualquer um com um computador e modem pode se tornar um publisher global”, diz Pavlik no livro Jornalismo e Nova Mídia.

Mas eis que um simpático senhor nascido no improvável Alabama, nos Estados Unidos, e co-responsável por uma das sacadas mais interessantes – e citadas – do pensamento sobre a mídia, vem pela primeira vez ao Brasil, em novembro último, e lança a idéia, a uma platéia de pesquisadores sobre o jornalismo, de que a atividade depende de só um pouco de esforço não só para garantir uma sobrevida, como para se manter na ativa por eras. O moço em questão chama-se Maxwell McCombs, o mesmo que lançou, no agitado 1968, junto com o colega Donald Shaw, as bases da Teoria do Agendamento (Agenda-Setting), através da qual a mídia seria responsável por definir a agenda de temas a serem discutidos e avaliados como importantes pelo público. A palestra foi realizada na Universidade Federal de Sergipe, na conferência de abertura do V Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo.

Trazendo o conceito recente da ‘Cauda Longa’ ao jornalismo – termo criado pelo editor-chefe da Revista Wired, Chris Anderson, transformado em best-seller homônimo, que identifica o investimento em nichos cada vez mais específicos de público como a galinha de ovos de ouro da vida econômico-comercial dos tempos contemporâneos -, McCombs crê existir na Web uma oportunidade de se criar uma “nova notícia”, imbuída de mais profundidade e perspectiva. Partindo do próprio pressuposto de alcance e pluralidade de um veículo tradicional como o jornal, o professor da Universidade de Austin, no Texas, lembra que “um meio de comunicação é formado por várias audiências fragmentadas, que se interessa por setores bem específicos, e não por um único público”. E o alcance a todos esses nichos e ‘sub-públicos’ fica evidente com o recurso da grande rede.

Para se conseguir ‘estender a Cauda’ e encontrar – e fisgar - essas micro-audiências, o pensador do Alabama lança o convite: “let’s cover the swamp!”, o que, numa tradução livre, poderia ser entendido como uma proposta para que os jornalistas fiquem impelidos a cobrir estórias que aparentemente não seriam notícia em mídias tradicionais. Descobrir o que há de interessante na zona ‘pantanosa’ dos acontecimentos que surgem nos lugares e situações mais pueris; esse seria o segredo da vida longa periodista. Pela lógica de McCombs, está nas pequenas interações sociais o nascedouro de todas as coisas que importam. Assim, caberia aos jornalistas dar mais atenção às conversas entre vizinhos, ao cotidiano de associações de bairro, aos campeonatos das ligas de esporte amador, às decisões tomadas nas escolas, ao disse-me-disse dos corredores, enfim, um preocupar-se mais com a vida comum das gentes. “Há informação disponível em todas essas esferas e, o que é mais importante, existe um público latente e potencial para absorver essas notícias”, instiga o professor. Os grandes temas continuarão tendo espaço garantido no jornalismo que se desenha à frente, profetiza o teórico, mas o grande diferencial e o que poderá garantir a sobrevivência do jornalista é, justamente, o investimento nesses assuntos ‘irrelevantes’.

Seriam cinco as pistas para encontrar essas notícias perdidas, com foco no que McCombs chama de “motivos que impelem o público a considerar determinados fatos relevantes”. A quem se aventurar a essa cruzada noticiosa, o quinteto maccombiano para se entender o porquê do interesse em determinados fatos é composto por 1 – interesse pessoal, 2 – conexão com família e amigos, 3 – ligações emocionais, 4 – dever cívico e, por fim, 5 – interesses pessoais idiossincráticos. Ninguém disse que seria fácil, mas aí estão os dados, prontos a serem lançados.

Não por menos a razão de o comunicólogo classificar esse mister como o grande “desafio metodológico” dos que ainda não abandonaram o barco da investigação jornalística. Numa manobra de defesa contra a insistência e o desconforto ao qual os intelectuais são submetidos para nunca deixar de falar sobre suas teorias mais ‘famosas’ e revisá-las – por supuesto, as perguntas acerca do Agenda-Setting continuam sendo formuladas a ele sem dó - , Maxwell McCombs desvia-se de forma magistral: “no momento em que uma teoria é congelada, passa a ser um mero artefato histórico. E não é como peça de museu que quero terminar a minha vida”. Ele não chegou a formular uma declaração aos arautos apressados e ranzinzas da morte do jornalismo, mas que se permita uma licença poética: nada está oficialmente morto até o último suspiro. Até lá, revolvamos o pântano, colegas. Revolvamos o pântano!


Um comentário:

Eduarda disse...

Há algumas coisas na minha vida das quais eu desconfio seriamente que nunca me cansarei. Uma delas, sem dúvida, é ler coisas inteligentes. Ótimo texto, Adriana.

Acredito, sinceramente, que as boas teorias, como o caso da teoria do agendamento, existem para ser esgotas, questionadas, revisadas e, porque não, reelaboradas. Poder questionar diretamente aos criadores de tais teorias é um privilégio de poucos, ainda mais se um dos criadores é Maxwell MacCombs. Toda essa 'redundância' foi pra dizer que nenhum intelectual deveria se incomodar em responder exaustivamente sobre suas teorias. E isso não quer dizer que se tenha que viver em função delas ou escrever, palestrar, responder apenas sobre elas, pelo contrário. Eu, particularmente, não me importaria nem um pouco em virar 'peça de museu' tivesse ajudado a elaborar algo tão genial quanto a agenda setting. Mesmo porque, com o perdão do pieguismo, peças de museus são imortais, ou deveriam. =D