sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Narciso e o espelho


Está no ar a nova edição da Revista Estudos em Jornalismo e Mídia, editada pela Universidade Federal de Santa Catarina. Entre os artigos, um de minha autoria (Representações sociais e a auto-imagem do jornalista). Versão para acesso em pdf. Leiam, comentem, xinguem (se preciso) e postem suas opiniões por aqui.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Quereres

Ah! Bruta flor do querer/Ah! Bruta flor, bruta flor


Já que fiz a lição de casa e postei anteriormente sobre um pedaço da minha pesquisa, sinto-me 'livre' para um comentário parcialmente desconectado ao tema do blog.

Quando decidi embarcar de vez na vida acadêmica, tive que, naturalmente, fazer escolhas. Larguei meus dois empregos estáveis (nunca pensei que seria tão difícil entregar a 'azulzinha' no departamento pessoal) e, junto a eles, um relativo conforto material e uma despreocupação com assuntos bancários.

Adeus carro, corridas de táxi, gastos 'supérfluos' (se alguém souber de um arreio para barrar a visão de algumas lojas, me avise) e bem-vinda estava eu ao mundo estudantil novamente, formado por uma bolsa de pesquisa e freelas ocasionais.

Demorei pelo menos uns seis meses para cair na real. Seria extremamente demagógico da minha parte afirmar que está sendo tudo lindo e romântico. Não há lá muita beleza em voltar a andar de ônibus depois de tanto tempo. Bem como não é com um sorriso no rosto que penso na mensalidade da escola das minhas filhas e contas em geral.

No entanto, dá para extrair uns momentos interessantes - na falta de melhor palavra - desse novo modus vivendi. Principalmente depois que perdi meu olhar de turista, para adquirir o olhar de uma 'local' que ainda se admira com as coisas 'pequenas' do cotidiano.

Na segunda-feira, voltando da Universidade para casa, no final da tarde, acompanhei uma cena que não me saiu da cabeça. No trajeto do ônibus, uma mulher com dois filhos pequenos sentou-se à minha frente. Bem arrumados e humorados, os meninos olhavam curiosos para tudo o que aparecesse pela janela.

Travaram uma 'conversa' com passageiros de um carro que parou ao lado do ônibus quando o sinal fechou. Quando o farol abriu, eles acenaram aos rapazes, que aceleraram e passaram à frente na avenida. O mais novo (uns quatro anos) virou-se para a mãe e disparou: "Mãe, eu quero andar de carro! Por que a gente não 'tá num?" A mãe olhou para ele, mas não respondeu. O mais velho (seis anos) tratou de satisfazer a curiosidade do irmão: "É porque a gente não pode, né, mãe?". A mulher desviou o olhar dos meninos e, nesse momento, cruzou o olhar com o meu. Covardamente, confesso, eu também desviei.

Lá e cá, tal e qual


No período de 21 de setembro de 2007 a 17 de outubro de deste ano, cataloguei e analisei 47 notícias sobre estrangeiros na Alemanha e nordestinos no Brasil, nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Süddeutsche Zeitung e Augsburger Allgemeine. No caso da Alemanha, 16 matérias, e do Brasil, 31 textos. Faz parte de um artigo sobre o uso deliberado de elementos de 'objetividade' no jornalismo, de modo a encobrir estereótipos e conceituações de senso comum.

Segue um breve 'retrato' midiatizado de nordestinos e estrangeiros, pela amostra analisada:

Nordestinos em jornais do Sudeste

Estrangeiros em jornais alemães

Pobre/sem recursos – 20,5% das recorrências

Recusa-se ou dificulta integração – 11,9% das recorrências

Trabalhador/Esforçado –16%

Baixa escolaridade/Despreparado 9,5%

Associação à seca – 10,2%

Pobre/sem recursos/sub-empregado – 7

Criativo/Talento artístico – 7,3%

Vítimas do preconceito/dificuldades – 9,5%

Tradicionalista/Conservador – 10,2%

Religioso/Supersticioso – 7,3%

Pouca ou nenhuma fluência no idioma –9,5%

Pessoas caricaturais/exóticas – 5,8%

Vontade/necessidade de migrar – 4,4%

Relação com criminalidade –7%

Solidário – 4,4%

Vontade/necessidade de imigrar 7%

Associação ao cangaço – 2,9%

Trabalhador/esforçado –7%

Gosto pelo jogo – 2,9%

Associação ao desemprego –7%

Humildade – 2,9%

Tradicionalismo/Conservadorismo –4,7%

Forasteiro, inadimplente, persistente, desapegado ao trabalho, amante da natureza, associação à violência e ao desemprego, com 1 recorrência cada (1,4% cada)

Temperamento afável –2,3%

Criatividade/Talento artístico 2,3%

Mau caratismo –2,3%

Excesso de estrangeiros no País –2,3%


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O self, o ID, ou seja lá quem for


Nem self, nem id, ego, super-ego ou arquétipo individual. O desenho aí em cima é a melhor - na verdade, a mais otimista e benevolente - representação de mim (ou da persona que represento, sabe-se lá) que eu já visualizei. Obra e arte de Nina, minha primogênita, com toda a autoridade e competência que seus quatro anos recém completados a conferem.


(Não, obviamente este post nada tem a ver com a minha pesquisa. Mas esse desenho falou tão alto a mim, que não poderia deixar de registrar meu encantamento).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Os outros são os outros

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece. (por Charles Bukowski).

Não consegui confirmar, em fonte minimamente fidedigna, a autoria desse excerto como sendo do 'velho safado' do Bukowski mesmo. Quem souber, me avise, por favor.

A menção ao preconceito no texto atribuído ao escritor é a deixa para comentar meu mais recente artigo. Numa análise de representação midiática do nordestino no Sudeste brasileiro e do estrangeiro na Alemanha, identifiquei na amostra recolhida em matérias de quatro jornais impressos (dois do Brasil e dois germânicos) o reflexo do velho e indefectível senso comum: a maior parte dos textos retrata o migrante e o imigrante sob a ótica da pobreza, falta de recursos e da sub-empregabilidade.

Não que esses dois grupamentos não estejam inseridos nesse contexto, pois muitas vezes estão, mas é que ainda são raras as aparições desses personagens em matérias que não estejam, necessariamente, fazendo referência a essa condição de, por assim dizer, subalternidade.

Engraçado que uma das matérias analisadas retratava um nordestino não migrante, empresário, na seção de Economia, a respeito do sucesso da empresa tocada por ele. Me animei com a possibilidade de fuga do lugar-comum, mas o cidadão, apesar de ter a característica do empreendedorismo destacada, é retratado como uma figura caricata, supersticiosa, conservadora e pouco ortodoxa no que diz respeito à administração do negócio.

Num texto pinçado de um jornal alemão, uma imigrante da Tunísia é descrita como fruto da saudável mistura entre as duas nacionalidades: "ela encontrou o seu caminho tirando o melhor das duas culturas: sinceridade, pontualidade, retidão e senso de justiça dos alemães; amabilidade, carinho, sociabilidade e generosidade dos tunisianos".

Êta mundo de Deus sem porteira, eternamente preso à malandragem de um 'bom' e velho estereótipo para simplificar a complexidade das gentes. Pára, motorista, que eu quero descer enquanto é tempo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Enunciação nas mídias


O Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE realiza, em 30 de outubro, o Seminário Enunciação nas Mídias, no Centro de Artes e Comunicação (mini-auditório 2).

O evento terá como palestrantes os professores José Luiz Fiorin, da USP, e Antônio Fausto Neto, da Unisinos. Virgínia Leal, do Programa de Pós-Graduação em Letras e diretora do Centro de Artes, e Alfredo Vizeu, do PPGCOM e coordenador do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade, atuarão como debatedores.

As inscrições são gratuitas e já podem ser feitas pelo e-mail ppgcomufpe@yahoo.com.br
Para isso, basta colocar o título do seminário em “Assunto” e informar o nome completo, e-mail e telefone no corpo da mensagem.

Confira a programação:

Seminário Enunciação nas Mídias
Dia 30/10/2008

09:00 – 09:30 – Abertura

09:30 – 12:30 – Conferência 1. As categorias da enunciação nas mídia. Conferencista: José Luiz Fiorin (USP:FFLCH). Coordenador: Yvana Fechine (UFPE:PPGCOM). Debatedor(a): Virgínia Leal

12:30 – 14:30 – Almoço

14:30 – 17:30 – Conferência 2. Midiatização e os ‘novos regimes’ da enunciação midiática. Conferencista: Antonio Fausto Neto (Unisinos). Coordenadora: Cristina Teixeira UFPE:PPGCOM). Debatedor: Alfredo Vizeu (UFPE:PPGCOM)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

meu nariz empinado à ética


Narizinho - Ilustração de Manoel Victor Filho


A ética do jornalista é a mesma ética do carpinteiro, parafraseando a genial sacada de Cláudio Abramo. E embalada nesta cantiga eu escanteei um estudo mais aprofundado sobre a questão por muito tempo.

Mesmo concordando integralmente com essa visão, esqueci-me de abrir os olhos para o fato de que comungar da idéia de que só existe uma única instância de ética, válida para todas as profissões e papéis no mundo, não exclui a necessidade de se debruçar sobre o tema, especialmente quando a 'espinha dorsal' da minha pesquisa, o fio condutor do meu estudo está fincado na ética. Que poderia ser apenas a do carpinteiro, mas é também a do profissional da notícia.

Também tive muitas reservas a uma análise deontológica do jornalismo, não porque não a considerasse relevante, mas por uma preconceituosa resistência, medo mesmo, de resvalar para o moralismo, a normatização e controle.

Inicei na semana passada a leitura de Ética, de Adolfo Sáchez Vázquez, e quase desisto ainda no prólogo quando percebi que o viés adotado pelo autor seria o de analisar a ética através da moral. Conceito controverso, primo-irmão do puritanismo, vou cair fora, assim oebsei. Mas não dei bola ao meu preconceito e segui. Não me arrependo. Até porque a moral, nesta obra, é encarada como fato histórico, como fruto de um tempo e, dessa maneira, objeto da análise ética.

Ele assume uma postura que não passa por moralismos dogmatizadores, por códigos de normas, tampouco se refugia num "neutralismo ético". Acho que era isso que eu fazia. Me refugiava com o manto da neutralidade, com o receio de parecer demasiado 'catequizadora'. Num excerto, o autor afirma que "o valor da ética como teoria está naquilo que explica, e não no fato de prescrever ou recomendar com vistas à ação em situações concretas".

Gostei de ter continuado a leitura. Aparte um exagerado otimismo no homem (do qual comungo) e de uma anacrônica certeza de que o socialismo ainda irá ser o redentor de todas as almas (da qual gostaria de ainda acreditar), é um livro que me colocou para pensar mais e com mais dedicação à ética. Àquela do carpinteiro ou qualquer outra que valha.