terça-feira, 24 de março de 2009

Santo de casa


Assistindo a uma interessantíssima palestra, ontem, de um professor da Universidade de Provença (sul da França), a respeito de suas pesquisas sobre representações sociais, não pude conter a surpresa quando percebi que o corpus utilizado pelo pesquisador era em boa parte formado por material publicado na imprensa francesa.

Aí converso cá com os meus botões. Se outras áreas do conhecimento - nesse caso, psicologia social - transitam confortavelmente pela seara jornalística, onde reside mesmo o problema da área de comunicação, que tem resistido cada vez mais (ao menos neste Brasil varonil) a se debruçar sobre seus próprios objetos? Por que a comunicação na Academia resiste tanto em aguçar o olhar por sobre o jornalismo?

Mero preconceito? Ranço? Tentativa de fugir de um possível lugar-comum? Vontade, frustrada, de imprimir uma cientificidade além da normal, fugindo do próprio quintal (objetos e ferramentas comunicacionais) para avançar no quintal do vizinho (objetos outras e ferramentas, idem, caras a outras áreas do conhecimento)?

Ao final das contas, camaradas, acho que o problema reside mesmo num embate tão antigo quanto as paixões humanas. Aquele que fundamenta a máxima de que santo de casa quase nunca faz milagres.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Janelas


Chego à centésima postagem neste blog para comentar um artigo recém-finalizado, sobre os rearranjos feitos pelos jornalistas num momento em que há uma profusão de 'não-profissionais' (na falta de melhor termo) produzindo e compartilhando conteúdo informativo.

Particularmente, defendo a participação cada vez maior dos usuários na construção noticiosa, por razões óbvias: maior democratização na produção de conteúdo, mais vozes para compor as narrativas, bem como a aceleração do acesso a informações, uma vez que podem disponibilizar dados no momento exato em que os fatos estão acontecendo.

Mas também defendo que esta participação dos cidadãos seja acompanhada da presença do repórter, quer seja para contextualizar o fato, trazer novos olhares, complementar e checar as informações.

Ainda que fotos, textos e vídeos possam chegar com facilidade às redações, como já chegam e continuarão a chegar cada vez em maior quantidade e de maneira mais rápida, acho que é difícil não reconhecer que o repórter que não se limita à redação e ao ciberespaço na apuração, e dá pelo menos uma espiada saudável pela janela, sempre vai fazer uma diferença pra lá de significativa.

Meu recado é esse: olhemos mais pela janela. Literal e metaforicamente falando.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Notícia sobre duas rodas

Ellen e Felipe giraram os pedais para fazer jornalismo dos bons


É com tristeza que recebo a notícia do fim do projeto Repórteres de Bicicleta, tema de um post de março do ano passado. E com alegria que descubro o motivo: os repórteres sobre duas rodas acabaram de se formar e, nas palavras do jornalista-ciclista Felipe Luchete, "por isso agora cada um vai pedalar para um lado (dispostos a não entrar no mercado de trabalho como jornalistas cordiais)".

A dupla aí da foto percorria a mineira Viçosa, a bordo de suas fiéis escudeiras de duas rodas - por supuesto -, em busca de histórias para contar, de pessoas que, certamente, passariam despercebidas pelo ritmo alucinado e desviante do nosso modus operandi tradicional.

Esses meninos fizeram diferença. E, certamente, continuarão pedalando - mesmo metaforicamente - por esse mundão todo que se descortina por aí. Sorte e parabéns pelo ímpeto, coragem e ousadia em olhar para fora da janela.

Abaixo, segue o 'comunicado oficial' sobre o fim do projeto:

Repórteres de Bicicleta publicam sua última edição

Desde abril de 2007, Ellen Araujo e Felipe Luchete pedalam por bairros da cidade mineira de Viçosa, situada a 225 quilômetros de Belo Horizonte, à procura de notícias e de histórias. Os Repórteres de Bicicleta publicam suas apurações na forma de textos, vídeos e imagens, no blog
http://www.reporteresdebicicleta.blogger.com.br/.

Na próxima sexta, dia 06, irá ao ar a última edição: um vídeo com a entrega de fotos a alguns personagens retratados no ano de 2008. Dividido em duas partes, o vídeo vai mostrar as pedaladas pelos bairros de Cristais, Lourdes, Inácio Martins e Barrinha, além de algumas imagens de edições anteriores.

O motivo que os faz parar de percorrer a cidade em busca de “notícias populares” é a formatura dos dois repórteres. No último dia 23 de janeiro, Ellen e Felipe formaram-se jornalistas pela Universidade Federal de Viçosa. Agora, com o diploma nas mãos, vão retornar às suas respectivas cidades natais (Ellen é de Volta Redonda/RJ e Felipe de Jundiaí/SP) para que de lá possam dar continuidade à vida profissional que começaram a traçar girando os pedais de suas bicicletas.

E como giraram aqueles pedais. Desde o início do projeto, os dois percorreram mais de 20 localidades diferentes de Viçosa e transformaram o que viram e sentiram em mais de 60 textos, 115 fotos e 30 vídeos. As pedaladas, quase todas aos domingos pela manhã, os levaram longe.

Em maio de 2008, os repórteres foram a São Paulo apresentar o trabalho no XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, o Intercom. Em setembro do ano anterior, foram reconhecidos pela mídia local e nacional depois que o blog foi recomendado pelo jornalista Ricardo Noblat – um dos blogueiros mais importantes do país.

Em quase dois anos buscando realizar um jornalismo cultural e digital de forma experimentada e diferente, Ellen e Felipe despedem-se da cidade e do blog com gratidão e saudade. Não mais atualizarão a página da internet (que vai continuar no ar, apesar disso), mas levarão consigo todo o aprendizado que adquiriram pedalando e narrando as histórias dos encantadores mineiros de Viçosa.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cabeça de turco


Não há título mais horrendo em toda a história das traduções do que o escolhido para o livro-reportagem do jornalista alemão Günter Wallraff, publicado pela primeira vez em 1985. A aberração fica por aí. Já conhecia toda a saga desta figura, mas, inexplicavalmente, nunca havia lido seus textos.

'Engoli' o livro acima de uma só tacada, esta semana. Mesmo levando em consideração o método questionável utilizado pelo autor - travestiu-se de alguém que não era, mentiu, provocou situações e coisa e tal -, ele consegue descer aos porões, ao nível mais baixo da sociedade alemã da década de '80 (Ganz unten, título original, significa literalmente "bem embaixo", na parte mais baixa, no fundo do poço).

Disfarçado por dois anos como um turco, ele, alemão de nascença, sentiu na pele todos os dissabores em estar 'do outro lado', bem como a solidariedade que sempre acaba surgindo entre os que se encontram deslocados e apontados como estranhos no mundo.

A reportagem é um relato contundente, duro, por vezes até cômico (na medida do possível) da tamanha irracionalidade que se transforma em brutal violência contra quem é 'diferente' - outra língua, outro sotaque, outra cor ou costume.

Confesso que minhas experiências iniciais com a Alemanha sempre haviam sido cor-de-rosa. Provavelmente por viver lá não como uma estrangeira apenas, mas como uma estrangeira dentro de um núcleo familiar alemão, nunca havia passado por nenhum constrangimento. Muito pelo contrário.

Minha última visita ao país, contudo, me foi extremamente dolorosa. N'outra região, não mais no norte que me havia sido tão amistoso, mas no extremo sul, senti na pele o que a intolerância, a burrice e irracionalidade podem provocar. Eu, que sempre teci loas àquele lugar, fiquei decidida a não voltar. Em pleno 2008, ouvi de uma imigrante brasileira (!): "vamos atravessar a rua, pois esse pessoal é turco, e você sabe, deve ser tudo terrorista". Entre os "terroristas", havia várias crianças.

Voltando ao livro...O autor se transforma em Ali, um imigrante ilegal que se submete a toda sorte de trabalhos para sobreviver, sofrendo humilhações espantosas, tal qual boa parte dos imigrantes. Quando morei por lá, conheci e me tornei amiga de um Ali. Iraniano, gráfico profissional, havia recebido asilo político em 1999. Sofrendo ameaças e perseguições na sua terra tão adorada, só lhe restava fugir para outro país.

Nos tornamos colegas de um curso de alemão para estrangeiros, e passamos - após o choque inicial e inevitável de culturas, com todas as negações e comparações naturais nesses processos - a ser grandes amigos. Ali era doce, seguia os preceitos da religião muçulmana, aceitava qualquer emprego que aparecesse. Tímido, sempre andava olhando para o chão. O último 'emprego' de que me lembro foi como distribuidor de panfletos na rua. Logo ele, acostumado a imprimir livros em sua loja própria. Seu melhor amigo era Masud, matemático iraniano que sonhava em ter seu diploma validado para poder voltar a ensinar numa universidade alemã.

Essa dupla tão amável sofria toda a sorte de preconceitos. Não apenas dos alemães, mas principalmente entre nosostros, latinos. Zombavam de seus hábitos pudicos, de suas roupas puídas, das dificuldades em aprender o idioma. Inteligentíssimos, penaram para se acostumar ao alfabeto ocidental, mas quando conseguiram se mostraram exímios conhecedores da obscena (de tão difícil) gramática alemã.

Quando estava prestes a voltar para casa, fiz uma despedida para a qual foram todos os meus amigos do curso. Ali era o mais emocionado. Ao término da festa, reclamou da pimenta que eu havia dado de presente a ele ("muito fraca, Frau Santana, no Irã é bem melhor") e da fita que eu havia gravado para ele ("a música é muito lenta, não dá para dançar"). Deu-me um abraço forte, e me disse, entre lágrimas, num perfeito alemão, já quase sem sotaque: "Du wirst mir fehlen" (Você vai me fazer falta).

Nós, que no começo havíamos discutido tanto sobre o tratamento dado pelos muçulmanos às mulheres, que quase havíamos deixado de nos falar por ele achar que era um absurdo eu morar com o meu então namorado ("você precisa se casar, Adriana"), nos despedimos com a dor aguda com a qual se despedem os grandes amigos. E para nunca mais.

Não pude deixar de pensar em Ali ao ler sobre todas as atrocidades cometidas contra os imigrantes. Ele me acompanhou em todas as páginas. Vi seu rosto marcado pela saudade de casa em todas as fotografias publicadas na obra. Reconheci seu esforço em se integrar àquele mundo tão diverso do seu em todos os relatos.

Não sei se pelo fato de a temática me ser cara, ou se impulsionada pelas lembranças de Ali, mas fiquei encantada com o trabalho de Wallraff. Minha próxima aquisição será a obra anterior, na qual ele disseca a redação do sensacionalista Bild Zeitung. E recomendarei a todos os meus alunos como um dos grandes exemplos de como fugir da cordialidade jornalística.

Em tempo: de todos os meus colegas da época, entre os quais uma grande amiga colombiana, jornalista como eu, a único carta que chegou para mim depois que voltei ao Brasil foi escrita num alemão quase perfeito, com letra cursiva (uma vitória para quem conhecia apenas o alfabeto árabe), cheia de delicadezas e saudades, pelo meu amigo Ali.

Perdemos o contato, mas sempre me lembro dele toda vez que me deparo com a estúpida insistência humana em condenar o que não é espelho.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

João do Rio

Numa dessas coincidências inexplicáveis, ou sicronicidades junguianas, como queiram, estava eu a me lembrar de que precisava ler mais João do Rio quando esbarro, no mesmo instante, com o seu Alma Encantadora das Ruas (aqui em pdf) numa estante da Livraria Cultura, numa edição bem em conta.

Hoje não vou me alongar, mas queria destacar um pensamento desse nosso 'patrono' dos repórteres e cronistas. Falando sobre as características necessárias para se entender a 'psicologia' das ruas, coisa que ele, Paulo Barreto (seu nome verdadeiro), fazia com maestria de gênio, conta o que cabe, para mim, como a melhor definição de repórter já feita. Mesmo que, em princípio, ele se referisse à qualidade de observador do dia-a-dia do comum das gentes, sendo jornalista ou não. Ei-la:

"É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneuer e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar. É fatigante o exercício? (...) Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem."

Flanemos, pois, colegas. Flanemos!

(em tempo, a obra desse genial flâneur pode ser acessada, gratuitamente, através da biblioteca digital Domínio Público, no link http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.do?select_action=&co_autor=53)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

para os momentos febris


Porque já se disse que escrever se dá num processo insano, febril, resolvi separar um pouco os escritos acadêmicos dos mais particulares, que agora terão como abrigo o sítio Febre Terçã. Assim, continuo a postar sobre minha tese doutoral em andamento aqui no Jornalismo Cordial, e deixo ao novo espaço a ingrata incumbência de guardar meus escritos menos formais e sem tanto compromisso. A porta está aberta.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A previsibilidade imprescindível

Me responde, por favor
Pra que que tudo começou
Quando tudo acaba
(Almanaque/Chico Buarque)


O que abre e o que fecha, o movimento do comércio, as missas e cantatas natalinas, o vazio das ruas na hora da ceia, o balanço das estradas e delegacias, a praia lotada no dia seguinte. A cobertura jornalística no Natal é isso aí. A gente reclama da mesmice, mas, como bem lembrou minha amiga Diana, "é feito Carnaval, tem todo ano, mas a gente nunca rejeita".

Uma repórter veterana sempre chegava à redação, em dias de festejo, resmungando que a apuração nessas datas era tão repetitiva, que se não saíssemos do jornal e só mudássemos as datas dos textos dos anos anteriores, não faria lá muita diferença. Seu bordão era "isso tudo é uma leseira".
Ela tinha sua parcela de razão. Tem um quê de melancólico, ritualístico, quase-previsível. Mas a gente não passa sem ele. Jingle Bells!