segunda-feira, 3 de março de 2008

nota pessoal


caríssimos, minhas duas crias estão com pneumonia. entonces, não poderei atualizar o espaço com tanta freqüência nesta semana. sugestões para os próximos posts podem ser enviadas ao e-mail adriana.santana@superig.com.br ou via comentários aqui no blog. até muito em breve!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Dois pesos, duas medidas


Um homem morreu em condições ainda não esclarecidas, esta semana, no Recife. Foi encontrado morto num conhecido 'inferninho' da cidade, bastante freqüentado por turistas europeus em busca de sexo pago.

Os poucos leitores que se aventuram a acompanhar os três jornais de circulação diária da capital pernambucana podem se perguntar, assim como eu, o porquê de apenas um dos matutinos ter informado, na matéria sobre o caso, que o estabelecimento se tratava de um inferninho.

Apenas o Diario de Pernambuco contou a história com esse - ao meu ver, nada descartável - detalhe. Como o próprio DP reporta, a principal função do local é clara, nada escondida, inclusive declaradamente aberta no site da boate-hotel-bar (logo na home, o texto avisa - em alemão ou nas outras três línguas disponíveis, que o local não é recomendado para famílias com crianças ou turistas que procuram um ambiente tranquilo).

A Folha de Pernambuco e o Jornal do Commercio fizeram cara de paisagem e trataram o estabelecimento como um barzinho aprazível e insuspeito.

Tenho ojeriza a teorias da conspiração. Também abomino a postura de alguns críticos que procuram cabelo em ovo. Acho muitíssimo exageradas algumas posturas, que a tudo culpam o 'sistema econômico'. Mas, diante dessa situação, baixo um pouco a guarda e me atrevo a perguntar: por que esse silêncio, ora bolas?

Será que esse respeito e discrição - legítimos caso fossem sempre utilizados pelos jornais, independentemente sobre quem se estivesse falando - teriam acontecido se a vítima em questão não fosse de classe média, não morasse em bairro nobre e não tivesse uma profissão tradicional?

Na minha concepção naive, o respeito com o qual o caso foi tratato deveria valer sempre, para todo mundo. Vocês devem se lembrar do recente post sobre o caso da moça desaparecida, que teve a vida amorosa revolvida no próprio DP.

Algumas coisas nunca mudam. Ao menos no Brasil, onde a lógica do "sabe com que você está falando" ainda reina, impávida, nas nossas mentes, atos e posicionamentos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Entre o copo e o cinzeiro

fonte: Der Spiegel"Se eu quiser beber eu bebo
Se eu quiser fumar eu fumo
Não me interessa mais ninguém
Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também "
(trecho de 'Lama', de Arrigo Barnabé)


Duas questões de saúde e segurança públicas estão sendo tratadas sob vieses completamente diferentes por uma parcela da imprensa. Aqui, vou me ater à pernambucana.

Enquanto a questão da proibição do fumo em ambientes públicos é reservada aos cadernos de cotidiano, com a tônica de problema de vigilância sanitária, com foco no incentivo à resolução, a decisão de impedir a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais virou fato econômico - sob a ótica de fechamento dos negócios e possível aumento no desemprego no setor. A exceção é de algumas matérias nos cadernos culturais, que trazem a discussão sobre o que chamam de "direitos dos fumantes em xeque".

A campanha contra a proibição de venda de bebidas é clara nos jornais. Os restaurantes vão quebrar, os garçons perderão emprego, as pessoas deixarão de ir aos estabelecimentos. Pelo discurso, o caos será instaurado na economia pernambucana com a manutenção da medida. O pandemônio, em suma.

Seguem algumas manchetes:

sobre a proibição de venda de bebidas nas estradas:
Lei seca ameaça empregos de bares e restaurantes - JC, 22/02
Editorial: os perigos da lei seca, JC, 16/02
Lei seca ameaça o turismo - JC, 09/02
OAB quer flexibilizar MP das medidas - DP, 21/02
Protesto de donos de bares interdita BR - 232 - DP, 21/02

sobre o fim do cigarro em estabelecimentos:
Cerco fechado aos fumantes - JC, 12/02
Bar que não punir fumo será multado - JC, 09/02
Proibido fumar! Reunião discute início das fiscalizações em bares - DP, 11/02

No meu entender, dois pesos e duas medidas estão sendo usados para lidar com o tema.

Esta semana, escutei até como argumento contra, numa entrevista para programa de TV, o "fato" que já houve afastamentos de funcionários temporários após o Carnaval. Mas não é verdade que, todos os anos, os temporários, como o próprio nome diz, são comumente contratados para o período de festas e, passado o reinado de Momo, logo dispensados? Por que agora a culpa é exclusivamente da falta de álcool às mesas dos estabelecimentos de beira de estrada?

E vocês, o que acham?

Para entender mais sobre o assunto:
Governo proíbe venda de bebibas alcoólicas em rodovias federais - G1, 21 de janeiro 08
Liminar libera venda de bebidas alcoólicas em rodovias do DF - Folha online, 01 de fevereiro 08
Venda de bebida à beira de estrada no Rio volta a ser proibida - Globo online, 26 de fevereiro 08

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A mão de Obama


Por ser tão recorrente, não me espanta mais a idiotia - travestida de comentários sarcásticos e pretensamente inteligentes -, cometida por jornalistas e não-jornalistas, especialmente no que se refere às tiradas que demonstram um preconceito igualmente insano e arcaico.

Também não me chamam mais tanta atenção - pela recorrência e cansaço - os paradoxos entre uma página e outra da Veja (para os leitores d'além mar, uma tradução: é a revista semanal brasileira de maior circulação e influência).

E, convenhamos, falar mal da revista até já está démodé. Mas não consegui deixar de vir ao teclado ao ler a edição desta semana (os próximos links são para assinantes, infelizmente).

Enquanto, em sua coluna, Diogo Mainardi conta com ojeriza como se deparou com uma horda de pessoas "porcas, feias e de pernas curtas" à saída de um show no Rio de Janeiro, Pompeu de Toledo explana - magistralmente, como sempre - as razões pelas quais acredita que o mundo não será mais o mesmo, caso, pela primeira vez na História, a uma mão negra recaiam as decisões mais importantes do globo (sobre a possível vitória de Barack Obama à presidência dos EUA).

Na mesma coluna, Pompeu de Toledo usa de metáforas tão geniais que me fazem ir à frente do espelho e lamentar minha parca literatura. Ao comentar sobre a dimensão do vulto de Fidel Castro, maior mesmo do que a mítica que envolve a própria Cuba, ele o compara a um "adulto corpulento numa banheirinha de criança" (a banheira como sendo a ilha, naturalmente).

Confesso que gostaria de ser, quando crescer, uma versão de saias do ensaísta. Mas, como possuo pernas curtas (e não tenho problema algum em tê-las, ao contrário de Mainardi), acho bem difícil conseguir chegar lá.

Abaixo, o trecho final do ensaio:

Roberto Pompeu de Toledo - Revista Veja, Edição 2049, 27 de fevereiro de 2008

O tamanho de Fidel, a pele de Obama…

Uma das atitudes racistas mais canalhas é a do branco que, numa disputa com o negro, aponta no próprio braço a cor da pele, para dizer como sua cor é superior à do outro. Um jogador de futebol fez isso, não faz muito, numa partida no Rio Grande do Sul. Essa pessoa que se sente tão superior porque tem a mão branca terá de aprender a viver num mundo (desconcertante, para ela) em que uma mão preta é que assina as ordens que farão a diferença entre a paz e a guerra, o progresso e a crise, ao redor do planeta, além de ter ao seu alcance os botões nucleares. A cara preta de Obama é que aparecerá todo dia nos vídeos do mundo inteiro. O cabelo duro de Obama e os lábios grossos de Obama é que dominarão a cena. A figura negra de Michelle, a mulher de Obama, é que estará a seu lado, nas recepções na Casa Branca e nas visitas a outros países. Isso fará uma enorme diferença no mundo. Fará uma enorme diferença no Brasil.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

De maledicências, veredictos e julgamentos

Serge Moscovici, teórico da psicologia social, afirma em seu livro Representações Sociais que "no pensamento social, a conclusão tem prioridade sobre a premissa, e nas relações sociais, conforme a fórmula adequada de Nelly Stephane, o veredicto tem prioridade sobre o julgamento".

Ou seja, nossa sentença sobre alguém ou alguma coisa vem mesmo antes de vermos e ouvirmos a pessoa/situação em questão. É assim que, segundo o intelectual, nós classificamos os outros e criamos as respectivas imagens mentais. Para Moscovici, essas representações que fabricamos "são sempre o resultado de um esforço constante de tornar comum e real algo que é incomum (não-familiar), ou que nos dá um sentimento de não-familiaridade".

O 'nariz-de-cera' dos parágrafos anteriores serve para ilustrar as minhas sensações ao ler matéria sobre o desaparecimento de uma jovem moradora da Ilha de Itamaracá (PE), publicada na íntegra (só para asinantes) na edição impressa do Diario de Pernambuco de hoje e em versão reduzida no matutino online.

O título, "Evangélica desaparecida há 16 dias", já intriga pelo uso da opção religiosa da moça como aposto. Não me lembro de ter lido alguma vez frases parecidas como: "Procura-se espírita desaparecido", "Católico sofreu acidente" ou "Agnóstico sumiu de casa". Como se o fato de ser ou não evangélico (ou protestante, kardecista, umbandista, ateu) dissesse mais ou melhor sobre alguém do que sua profissão, sexo, faixa etária ou naturalidade.

De acordo com a matéria, é provável supor que a jovem desapareceu devido a intrigas relacionadas à conduta moral da moça, que seriam praticamente trivialidades se o 'desvio' que ela teria tomado não fosse inaceitável pela igreja da qual faz parte. Assim sendo, creio eu, optou-se por utilizar o adjetivo "evangélica" para que se relacionasse melhor o título à situação contada no texto.

Tudo bem, até aí eu compreendo relativamente. Mas minha boa-vontade para com o rumo que tomou a matéria foi para o reino do beleléu quando me deparo com a entrevista realizada com o namorado (suposto pivô, portanto, do imbróglio) da moça. A primeira pergunta fez apertar meu coração de estudante: "O que você acha dessas acusações contra Mirela?"?

Amigos, que os integrantes da igreja que a jovem freqüenta tomem como "acusação" um disse-me-disse sobre sexo entre namorados, eu relevo. Mas nós, repórteres, tomarmos isso como fato e sentenciarmos como acusação a possibilidade de ter ocorrido um ato sexual consentido entre dois jovens maiores de idade, perdoem-me, é de fazer chorar.

"Vocês nunca tiveram relação sexual"? é a pergunta que vem em seqüência. E é da sua conta, cara-pálida? Mais uma vez, o jornalismo corroborando para a manutenção dos arcaismos. E se o rapaz respondesse que sim (o que não o fez)? Estaria, então, dada a sentença do caso pelo jornalista? A moça, enfim, teria incorrido em pecado capital?

O que poderia ter sido uma matéria legítima sobre um fato real e preocupante (desaparecimento de uma jovem), que serviria também de alerta sobre os efeitos maléficos da maledicência e preconceito (a moça ter sido vítima de fofoca maldosa e invasão de privacidade, aliada a uma forte dose de conservadorismo bobo), acabou se transformando - no meu ponto de vista - numa peça tão conservadora e maledicente como a pregada contra a garota. Que Mirela não vire mais um número nas frias estatísticas, encontre seu caminho e volte logo para casa.

Pingos nos is

(se ainda não fiz, ainda há tempo para um esclarecimento, que sempre faço aos meus alunos. visto, sem medo, a carapuça para boa parte das críticas à imprensa que tenho feito e ainda farei neste espaço. se eu aponto as falhas, é porque também já tropecei muito pelo caminho, e para que pensemos sobre elas - e, se possível, não as repitamos. pois que falar é sempre mais fácil. difícil é arregaçar as mangas e fazer acontecer)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A Flor e a Náusea

do site releituras


Notícia boa merece ser reverberada. Espalhada aos quatro ventos. Tal como a boa nova que vem do OmbudsPE, projeto que monitora a imprensa pernambucana, especialmente no que concerne a respeito aos direitos humanos.

O site havia publicado, em novembro, um comentário sobre os famigerados anúncios publicitários disfarçados de notícia, com destaque para os veiculados no Jornal do Commercio. A denúncia foi enviada à Agência Nacional de Jornais (ANJ).

No início deste mês de fevereiro, a ANJ reconheceu o erro e mandou resposta pela assessoria de imprensa:

"Informo que a diretoria da Associação Nacional de Jornais, depois de consultar o Jornal do Commercio a respeito da denúncia por você encaminhada, de que o jornal havia veiculado publicidade sem a devida caracterização, considerou satisfatória e adequada a explicação daquele periódico. O Jornal do Commercio admitiu o equívoco, explicando que deveu-se à falha da agência de publicidade e falta de comunicação com a equipe de produção do jornal. O anúncio foi produzido sem a devida caracterização pela agência e esta falha passou despercebida pelo editor da página. Além de lamentar o equivoco, o Jornal do Commercio manifestou a certeza de que não voltará a ocorrer. Agradecemos sua iniciativa de apontar o problema, que consideramos como uma contribuição para o padrão de jornalismo ético defendido pela ANJ."

A equipe do OmbudsPE informa que "a resposta da associação empresarial nos anima para que utilizemos ainda mais esse canal para apontar desvios no código de ética apontado pela própria entidade". Link completo do texto.

Não lhes parece essa notícia um pouco com a flor de que falava Drummond? Um fiapinho de esperança em meio às náuseas do mundo.

A Flor e a Náusea
(Carlos Drummond de Andrade)

"Preso à minha classe e a algumas roupas
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me?

(...)
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia.
Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia.

Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. "

(leia o poema completo)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Espelho, espelho meu


Caros, iniciei uma pesquisa sobre a imagem que os jornalistas têm de si mesmos. A idéia é, posteriormente, realizar um estudo comparativo com profissionais de outro país. A base teórica desta análise está nas representações sociais.

Estou convocando interessados a participar, respondendo a um questionário eletrônico (que é rápido, indolor e livre de gorduras trans).

Quem topar, favor entrar em contato pelo adriana.santana@superig.com.br . Agradeço antecipadamente!